sexta-feira, maio 09, 2008

Nova Zelândia dá bom exemplo na produção de leite

Artigo publicado no Wall Street Journal mostra como pode-se obter ganhos de produtividade na agricultura a partir do exemplo da Nova Zelândia na pecuária leiteira. O Brasil também pode facilmente fazer isso em várias culturas:

NA NOVA ZELÂNDIA, UM EXEMPLO DOS LIMITES NA PRODUÇÃO DE ALIMENTOS

Com a inflação dos alimentos provocando protestos do Egito à Indonésia, fica evidente que o mundo precisa aumentar a produção. Mas a situação da Nova Zelândia é um bom exemplo de como essa reação pode ser lenta demais.

A Nova Zelândia é a Arábia Saudita do leite. O país é o maior exportador mundial de laticínios. Com o crescimento da demanda mundial, uma cooperativa que vende a maior parte do leite do país tentou captar US$ 1 bilhão ou mais de investidores externos para expandir a produção.

Contudo, ela precisava do consentimento dos cooperados - ou seja, de cerca de 11.000 produtores rurais. Satisfeitos com a estrutura da cooperativa e temerosos de dar a investidores externos influência em suas decisões, os produtores até agora bloquearam o plano. "Os fazendeiros não construíram isso aqui do nada só para jogar tudo fora da noite para o dia", diz Frank Brenmuhl, presidente da divisão de laticínios do principal sindicato de produtores rurais do país.

O impasse na Fonterra Cooperative Group Ltd. - que tem no Brasil, em sociedade com a Nestlé, a Dairy Partners America - revela um conflito no centro da agropecuária mundial. Em outras commodities, como metais e petróleo, quando os preços aumentam de modo sustentado, grandes empresas com caixa farto investem para desenvolver novas fontes. Os preços dos alimentos também subiram em praticamente todos os segmentos, do arroz ao óleo de palma. Mas a produção ainda é dominada por milhões de pequenos produtores.

Políticos e sociólogos preferem assim; as pequenas propriedades mantêm as comunidades rurais vivas e, especialmente nos países em desenvolvimento, fornecem empregos essenciais. Mas, quando se trata de reagir rapidamente a uma explosão na demanda, as pequenas propriedades são problemáticas. Elas tendem a ser menos produtivas do que as maiores. E geralmente não têm o capital para o pesado investimento em maior capacidade de produção que muitos economistas dizem ser necessário agora.

Os investidores têm o capital. Contudo, novamente por causa da estrutura fragmentada em pequenas propriedades, quem quer apostar no aumento da produção de alimentos não tem muito onde investir. O resultado é uma cadeia mundial de produção quase no limite, com os menores estoques de grãos das últimas décadas.

Calcula-se que a demanda por laticínios cresça de 2,5% a 3% por ano - sendo mais de 10% por ano na China -, mas a produção tem crescido apenas em torno de 1,5% a 2%, segundo o banco holandês Rabobank.

O déficit corroeu os grandes estoques de outrora e deixou os preços de laticínios vulneráveis à mesma volatilidade do petróleo. Quando uma seca no ano passado diminuiu a produção da Austrália, outro grande exportador de laticínios, o preço do leite em pó, que há anos pairava na faixa de US$ 2.000 por tonelada, passou dos US$ 5.000 pela primeira vez, ainda de acordo com o Rabobank.

Como ficou evidente com a seca, o capital não é a único fator que limita a resposta rápida à alta dos alimentos; também há a irrigação, a qualidade do solo e das estradas, o armazenamento e as restrições ao comércio, entre outros. Entretanto, o Banco Mundial argumentou num relatório recente que "um aumento acentuado no investimento" agropecuário é necessário para atender à demanda mundial por alimentos, especialmente em lugares como a África subsaariana, onde se calcula que as importações de alimentos devem mais que dobrar até 2030.

Algumas fazendas do mundo em desenvolvimento têm se consolidado e conseguido investimento externo, mas elas são exceções. Em muitos países, como México, Índia e Tailândia, os governos têm políticas restritivas para a propriedade rural, ou proíbem investimento estrangeiro para proteger os pequenos produtores e desencorajar a formação de empresas muito grandes, mais propícias a demitir empregados.

Uma conseqüência dessas políticas é que, apesar do enorme interesse dos investidores, "quase não há" empresas que podem receber esses recursos, diz Thomas Murphy, chefe de pesquisa de investimento do Deutsche Bank AG na Austrália.
A Nova Zelândia não tem muitas das pressões que motivam os governos a manter pequenas as propriedades agrícolas - mas o investimento e o potencial de expansão são limitados mesmo assim.

A água abundante e os enormes pastos fazem da Nova Zelândia um país ideal para a pecuária. Os pecuaristas de leite do cinturão da manteiga do país formaram a Fonterra em 2001, com a fusão de suas principais cooperativas de laticínio, com o objetivo de aumentar seu prestígio nos mercados internacionais. Cerca de 95% dos pecuaristas de leite da Nova Zelândia são membros. Para aderir, eles compram cotas da cooperativa e concordam em vender a ela o leite.

A receita da cooperativa superou os US$ 10 bilhões no ano passado e deve aumentar em 2008 porque os preços dos laticínios dobraram em alguns casos nos últimos 18 meses. O rendimento médio dos cooperados subiu mais de 50% ao longo de um ano. Em Ashburton, na ilha sul da Nova Zelândia, Porsches e Range Rovers povoam as ruas.

"Dez anos atrás, a agropecuária era um setor em decadência na Nova Zelândia", diz Willy Leferink, um fazendeiro que tem um barco e um Mercedes em sua garagem. "Agora as pessoas correm todas para ela."

Mas seria difícil para o país aumentar a produção dos latícinios muito mais. Boa parte do pasto disponível já tem gado bovino ou ovino. E muitos fazendeiros estão mergulhados em dívida por causa dos empréstimos que tomaram para expansão.

Em novembro passado, a Fonterra propôs um plano de reestruturação que lhe permitiria produzir mais leite no exterior. Os ativos da cooperativa seriam transferidos para uma nova empresa, que registraria suas ações na Bolsa de Valores da Nova Zelândia. Analistas estimaram que a medida poderia captar até US$ 1,5 bilhão de investidores.

A cooperativa usaria o dinheiro para criar "mini Fonterras" em outros países, como China e partes da Europa e América Latina. Isso aumentaria a presença da Fonterra em mercados onde a demanda está crescendo mais rápido e lhe permitiria produzir mais leite, que é difícil de transportar em longas distâncias.

Ela já investiu em duas fazendas experimentais e uma empresa de distribuição no Chile e está desenvolvendo uma fazenda com 3.000 cabeças de gado na China com um parceiro local.

Henry van der Heyden, um dos presidentes da cooperativa, anunciou o plano em novembro. Ele disse que essa era a única maneira de se alcançar a meta de crescimento. Depois da venda de ações, os membros da Fonterra ainda teriam cerca de 80%.

Mas alguns produtores questionaram a capacidade da cooperativa de produzir de maneira rentável em outros países. Eles temiam que investidores externos os pressionassem a aceitar preços menores pelo leite, para gerar caixa e pagar dividendos.

O plano exigia a aprovação de 75% dos produtores da Fonterra. A oposição foi tão forte que em fevereiro a cooperativa cancelou um referendo sobre o plano (The Wall Street Journal Américas, 9/05/08)

Nenhum comentário: