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quinta-feira, janeiro 22, 2009

Em artigo, setor pede socorro ao Presidente!

Apesar do artigo não ser tão novo, foi publicado pelo Estado de São Paulo no dia 12 de janeiro, acredito que, por ser de uma autoridade no setor, seja de interesse, pois Pedro de Camargo Neto além de ser o atual presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína, já foi presidente da Sociedade Rural Brasileira e secretário do Ministério da Agricultura:

Socorro, presidente!

Senhor presidente Luiz Inácio Lula da Silva, solicitamos recentemente uma audiência para expor os problemas que o setor de suínos vem enfrentando, bem como apresentar propostas de ações específicas para minorá-los. Provavelmente, Vossa Excelência deve ter julgado sua disponibilidade incompatível com o peso do setor, diante da complexidade econômica do País. Contudo, para os nele envolvidos, os assuntos são altamente prioritários, e muitas das soluções para os entraves que vimos enfrentando dependem exclusivamente da ação do seu governo. Daí a opção por esta carta aberta.

Não se trata de reiterar pedidos de financiamento. Sentimo-nos contemplados com o atendimento aos reclamos de outras lideranças empresariais que já passaram por aí, ainda que os recursos financeiros continuem fluindo muito devagar no caminho até o caixa. As medidas até agora podem ter atendido ao setor financeiro, porém para quem produz ainda são insuficientes.

Precisamos de ajuda nos esforços para a abertura de novos mercados internacionais. A principal barreira para a carne suína é sanitária. Não conseguimos, ainda, convencer os importadores da excelente qualidade e sanidade do produto nacional. Derrubar barreira sanitária exige ação de governo. A negociação é sempre com a autoridade sanitária do país importador. As negociações dependem dos governos. Não há como exportar sem o governo equacionar antecipadamente as barreiras sanitárias.

No caso da suinocultura, as exportações despencaram em novembro e dezembro. Embora nosso grande mercado seja o interno, exportamos cerca de 20% do que produzimos e a perda de parte das exportações é muito prejudicial. As exportações do setor estavam muito concentradas na Rússia, país que nesta crise global está em pior situação do que o Brasil. Não bastassem os problemas que o consumidor russo enfrenta, para o pouco mercado que sobrou o governo da Rússia decidiu privilegiar nosso concorrente, a suinocultura dos Estados Unidos. Tiraram cotas do Brasil e as repassaram para os norte-americanos, justamente neste momento crítico.

Socorro, presidente! Não esperávamos por essa, sobretudo porque o presidente Medvedev nos visitou recentemente. E a tal aliança estratégica, Brics, etc.? Difícil entender o que pode ter acontecido. Sentimo-nos traídos. Impossível deixar passar em branco tal revertério. Precisamos reagir, presidente. Trata-se de um problema para seus ministros pensarem uma solução urgentíssima.

Há, também, outros mercados que podem ser agilizados, que precisam ser priorizados. A crise exige ainda mais rapidez e eficiência, incompatíveis com o ritmo com que as negociações vêm sendo tratadas. Precisamos de um serviço público forte, independente e competente.

Perdemos, com o foco de febre aftosa de 2005, as exportações para a África do Sul. Mais um equívoco, presidente: o boi tem a doença e o suíno paga o preço. O foco da febre aftosa em Eldorado (MS) retirou o Brasil das exportações e nunca mais conseguimos reconquistar as necessárias habilitações sanitárias. Não ter resolvido essa pendência três anos depois é inadmissível, pois é uma questão, apenas, de ação e trabalho. Senhor presidente, a quem devemos recorrer?

No caso do mercado das Filipinas, gastamos o ano de 2008 inteiro com idas e vindas de questionários sobre a sanidade da nossa carne. Precisamos que os veterinários daquele país venham logo e liberem as nossas exportações urgentemente. A vinda de uma missão veterinária em janeiro precisa ser confirmada.

Em relação ao mercado da China, após um longo período de divergências, finalmente temos um protocolo sanitário assinado. Uma missão veterinária chinesa visitou recentemente o Brasil. Estamos na dependência, agora, da fila de atendimento aos processos, que parece nunca andar. Se somos vítimas de uma imensa burocracia, imagine a da China, que é muito maior do que a nossa. O momento, mais do que nunca, exige atenção e prioridade.

Convencemos o Japão de que merecemos atenção. Enviaram extenso questionário como passo fundamental para possível abertura do maior mercado do mundo. O questionário está sendo trabalhado pelo Ministério da Agricultura e precisará ser enviado a Tóquio o mais rápido possível, com um especial pedido de atenção e recomendação para que sua análise seja acelerada.

O atraso nas negociações com a União Europeia, sobretudo devido à confusão com a carne bovina, pode ser facilmente revertido numa próxima missão veterinária. Uma palavra pode antecipar muito essa tão esperada visita. O mercado europeu, embora com acesso regulado por cotas, representa importante chancela de qualidade para a carne suína brasileira. A cota de 40 mil toneladas, embora pequena no longo prazo, representaria uma conquista em 2009.

Em relação aos Estados Unidos, a administração Bush enviou seus técnicos em junho, que deveriam ter concluído estudos, iniciando um longo processo de consulta pública em Washington. Acreditamos que a chegada à Casa Branca do presidente Obama e sua equipe não atrapalhe, mas marcar uma posição sempre é conveniente.

Há mercados menores, não quero aqui aborrecê-lo com detalhes, mas todos exigem, além de atenção e prioridade, disposição para resolvê-los. Há muito que se fazer. Trata-se, antes de tudo, de vontade política. Insistimos: a crise, que chegou forte e antes da hora, está a nos exigir muito mais trabalho e competência. Não é o momento de desperdiçar esforços, ao contrário, temos de somá-los. De nossa parte, temos tentado o possível e gostaríamos que nossas ações se pudessem agregar à iniciativa do governo. Colocamo-nos à disposição para o que for necessário ao bem comum.

Respeitosamente, Pedro de Camargo Neto

Pedro de Camargo Neto, engenheiro de produção, é presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs).

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Algumas estratégias para o agronegócio passar pela crise

Apesar de serem publicados um mês atrás (18 de dezembro), os artigos abaixo mostram idéias interessantes de como o agronegócio brasileiro pode minimizar os efeitos da crise.

O primeiro, com o título "Estratégias para atravessar a atravessar a crise" de Carolina Pereira e Luiz Silveira e o segundo, uma entrevista com o Ivan Wedekin da BM&F, ambos publicados pela Gazeta Mercantil:

Estratégias para atravessar a atravessar a crise

São Paulo, 18 de Dezembro de 2008 - Fernando Muraro, analista de mercado da consultoria AgRural, define o ano que está por vir como "um dos mais difíceis da história do agronegócio". A frase de efeito é baseada em algumas previsões do analista. Uma delas diz que, em 2009, os preços da soja e do milho devem ficar de 30% a 40% menores que a média de 2008.

No caso da soja, Muraro aponta que, enquanto no ano passado, na mesma época, 50% da safra estava negociada, nesse ano o percentual é de 20%. Nos Estados Unidos, a situação não é tão diferente. Matéria do jornal The New York Times mostra que, agora, com a rapidez de uma tempestade de granizo que varre o campo, os tempos difíceis estão de volta nas fazendas americanas. O preço pago pelas safras está vindo abaixo muito mais rápido do que o custo de cultivo.

Diante desse cenário, os produtores americanos já lamentam terem perdido o momento certo para vender sua safra. Lamentam também aqueles que compraram terras no auge dos preços agrícolas. Quando o assunto é terras, as perspectivas para 2009 não são diferentes, mas indicam boas oportunidades para quem quer comprar.

Por conta da crise econômica, a consultoria Agra FNP prevê que, no ano que vem, a oferta de terras aumente e, com isso, os preços caiam. A expectativa já gera reações no mercado. A Brasil Agro, companhia que explora oportunidades no mercado imobiliário agrícola, mudou a estratégia por conta da possibilidade de comprar terras já em produção: seu foco não está mais apenas em propriedades nas desenvolvimento.

Por outro lado, no escritório Veirano Advogados, que procura e analisa negócios de aquisição de propriedades rurais por investidores estrangeiros e locais, o momento de instabilidade causa reações opostas. Enquanto alguns clientes suspenderam as transações, outros estão chegando com sede para aproveitar algumas pechinchas que podem aparecer.

Em entrevista à Gazeta Mercantil, o diretor de Commodities da BM&FBovespa, Ivan Wedekin, indica algumas ferramentas que o agricultor pode utilizar para se proteger das oscilações nos preços de seus produtos, e outras que compensam a diminuição na oferta de crédito rural.

Parte desses instrumentos foi desenvolvido pelo próprio executivo, quando esteve à frente da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, na gestão de Roberto Rodrigues. Por uma grande coincidência ou pela qualidade desses sistemas, agora algumas idéias que Wedekin teve no governo estão se revertendo em vantagens potenciais para a própria BM&FBovespa.

O governo já está autorizado por lei a implementar um subsídio à participação dos agricultores no mercado de contratos de opção de produtos agropecuários na Bolsa, como forma de estimular os produtores a fazer um seguro de preço. Esse seguro - o hedge -, aliás, tem se tornado cada vez mais importante para conseguir linhas de crédito rural, e pode ser essencial em um momento de volatilidade nos preços.

Inovação

Um caminho mais de longo prazo, mas que também pode aumentar a competitividade dos agricultores, começa a sair dos laboratórios brasileiros. São as primeiras sementes geneticamente modificadas, ou transgênicas, desenvolvidas no País, com capital intelectual nacional. A Embrapa deve solicitar a liberação comercial de uma soja tolerante ao herbicida imidazolinona já nas próximas semanas.

O produto foi desenvolvido em parceria com a Basf, já tem grandes perspectivas de uso em outros países e trará ganhos relevantes para o País na forma de royalties. No segundo semestre será a vez do feijão resistente ao vírus do mosaico, também da Embrapa, o primeiro transgênico desenvolvido totalmente por instituições públicas.

Nos próximos dois a três anos deve chegar ao mercado a cana transgênica da Alellyx, criada pelo grupo Votorantim e recém-adquirida pela líder mundial em biotecnologia, a Monsanto. Além de colocar o Brasil no mapa mundial da biotecnologia, a chegada dessas variedades também permite o acesso dos agricultores brasileiros a tecnologias que não seriam desenvolvidas por empresas multinacionais, por conta do baixo interesse comercial, como o feijão. E até a opinião pública sobre os transgênicos pode mudar, já que existe uma resistência por conta do domínio das multinacionais no setor.

Ampliando a liquidez em meio à crise

São Paulo, 18 de Dezembro de 2008 - Como consultor do governo e secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura na gestão de Roberto Rodrigues, Ivan Wedekin desenhou muitas das complexas ferramentas que hoje são usadas para assegurar aos agricultores o preço mínimo de seus produtos, garantidos por lei. Entre as siglas Prop, Pepro e PEP, instrumentos hoje usados pelo governo com essa finalidade, há várias estruturadas por Wedekin e sua equipe.

Com a saída de Rodrigues do ministério, perto do fim do primeiro mandado do presidente Luis Inácio Lula da Silva, Wedekin permaneceu poucos meses no governo, até assumir a diretoria de Agronegócios da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Em dois anos de bolsa, Wedekin já viu uma parceria estratégica com a Chicago Mercantile Exchange (CME), que ficou à época com pouco mais de 10% da BM&F, e depois a fusão com a bolsa de valores, a Bovespa. Agora, vê a primeira crise financeira. Mas na sua seara, que são as commodities agrícolas, os resultados do trabalho do executivo deve proteger a bolsa - ainda que parcialmente - dos efeitos danosos da crise.

Esses resultados não são só do tempo em que Wedekin está na BM&F, mas também por conta de seu legado na política agrícola nacional. Ele se esforçou para criar instrumentos que garantissem os preços mínimos aos produtores rurais sem a necessidade de intervenção direta do governo, que usualmente comprava grandes estoques de produtos agrícolas no patamar exigido por lei.

Entre esses instrumentos estava a venda de contratos de opção de venda das safras com o governo, que garantiam que o produtor receberia, no mínimo, os preços que o governo tinha que garantir. Agora, o governo poderá se tornar um grande estimulador do mercado de derivativos agrícolas da BM&FBovespa, em uma progressão natural do sistema operacionalizado por Wedekin nos tempos de ministério.

Segundo ele, já está aprovada a legislação que permite que ao governo estimular financeiramente os agricultores a usarem o mercado de opções de produtos agrícolas para fazerem um seguro de preço. "Agora vamos ver a vontade política e a operacionalização desse sistema", diz ele. Além disso, Wedekin comemora que começará a funcionar em 2009 o sistema integrado de ordens entre a CME e a BM&FBovespa, que permitirá um acesso muito mais fácil de investidores do exterior aos contratos da bolsa brasileira.

Gazeta Mercantil - Como está o mercado de derivativos agrícolas no Brasil?

Estamos vindo de um período de expansão na negociação de contratos agrícolas. Em 2005 foram negociados na BM&F 1,1 milhão de contratos nesse segmento. No ano passado foram 2,2 milhões de contratos negociados, o que significa que dobramos o número de negócios em dois anos.

Gazeta Mercantil - E como devem fechar esses números em 2008?

Neste exato momento [pára para olhar seu monitor, com as negociações em tempo real] estamos com 3,214 milhões de contratos negociados desde o início do ano. É um crescimento significativo. Devemos fechar 2008 com um crescimento próximo de 50%.

Gazeta Mercantil - A crise financeira global não vai afetar os volumes negociados em 2008?

Sentimos uma queda forte no número de negociações em novembro, mas que teve grande participação da queda tradicional nos contratos de boi gordo nesse período. O contrato de boi de outubro é o mais negociado sempre, porque é o principal referencial dos preços na entressafra, por isso ocorre uma forte queda em novembro. Só no boi o número de negócios caiu de 170 mil contratos em outubro para 89 mil contratos em novembro.

Gazeta Mercantil - Mas já é possível sentir algum efeito da crise?

É certo que essa queda em novembro [de 26% sobre o mesmo mês do ano passado] está atrelada a toda a situação de crédito, porque ocorreu em todas as bolsas de commodities internacionais. Mas terminaremos o ano com resultados bem melhores que os registrados pelas outras bolsas internacionais.

Gazeta Mercantil - Quão melhores serão os resultados da BM&F?

No acumulado de janeiro a outubro, o número de contratos negociados na Bolsa de Chicago subiu 12% no caso do milho, 15% para o boi e 22% para a soja. Os contratos de café em Nova York cresceram 8%. Enquanto os contratos agrícolas nas principais bolsas internacionais crescem em uma faixa entre 8% e 22%, na BM&F, até novembro, tivemos um crescimento de 52% no total dos derivativos agrícolas. É isso nos permite dizer que fecharemos o ano com um índice próximo a 50%.

Gazeta Mercantil - Esse crescimento tão grande demonstra uma maturidade do mercado brasileiro ou justamente que estamos longe do potencial?

Estamos muito longe do padrão internacional. Na média mundial, os contratos agrícolas representam 4,2% de todos os derivativos negociados. No Brasil, este ano, estamos em 0,84% do total. Apesar de todo o crescimento, os mercados precisariam crescer cinco vezes para atingir a mesma significância que têm em outros países.

Gazeta Mercantil - Sendo o Brasil um país fortemente agrícola, não era de se esperar o contrário?

Apenas nos últimos cinco ou seis anos se consolidou a estabilidade da economia brasileira. A agricultura não convive com inflação. Os mercados de contratos futuros e de opções de produtos agrícolas só começou a se estabelecer quando o agronegócio se acostumou com a inflação baixa e a abertura do mercado. Além disso, há o problema da tributação e regulação nesse setor, que são mais complexas.

Gazeta Mercantil - Que problemas são esses?

Hoje quase 80% dos contratos negociados na BM&F são de juros e dólar. As políticas relacionadas a eles são federais e conhecidas por todos. A regra é clara. No caso agrícola existem muitas normas diferentes que agem sobre o setor, e a complexidade faz as pessoas não terem a mesma visão simples de outros segmentos.

Gazeta Mercantil - E quanto à questão cultural? O agricultor brasileiro está aprendendo a importância de fazer o hedge?

Eu diria que a cultura é um outro desafio, mas que está se alterando rapidamente. A Bolsa tem se esforçado muito nesse sentido, e em 2008 visitamos 10 "agrocapitais" com o programa BM&FBovespa Vai ao Campo, falando com 4,8 mil produtores rurais. Além disso, treinamos mil funcionários do Banco do Brasil sobre derivativos em 2007 e 2008, porque o banco [que é o maior financiador do crédito rural] tem grande interesse em que o agricultor corra menos riscos.

Gazeta Mercantil - Além desse interesse do BB, o governo vem atuando de alguma forma para estimular os agricultores a se protegerem?

A própria política agrícola popularizou o mercado de opções, com os prêmios de opção, que tornaram essa ferramenta de proteção mais conhecida do agricultor. Agora pode haver alguma iniciativa do governo em vir a subsidiar o prêmio do mercado de opções agrícolas da BM&FBovespa.

Gazeta Mercantil - Como seria isso?

Recentemente, quando foi aprovada a lei com alterações no crédito rural, foi incluído um artigo que possibilita que o governo subsidie opções em bolsa. Seria uma ação do governo via mercado, como também existe para o subsídio do seguro rural, no qual o governo chega a pagar até metade do prêmio do seguro quando o produtor apresenta a apólice contratada com uma companhia seguradora. Seria uma maneira de desenvolver o mercado de opções, com o qual o produtor tem mais familiaridade. Até porque os contratos futuros são mais complexos - têm ajuste diário, garantias.

Gazeta Mercantil - Em que estágio está a implantação desse sistema de subsídio?

Na verdade foi criada a base legal, mas tudo está no campo das idéias ainda. Andei pela Câmara dos Deputados em Brasília, na semana passada, e vi que esse assunto está andando, sendo discutido. Isso foi discutido no Ministério da Agricultura, no Banco do Brasil... tem muita gente pensando. Agora vem a decisão política do governo de implantar esse sistema e depois a operacionalização. É aí que entra a Bolsa.

Gazeta Mercantil - Caso o sistema se concretize, será uma grande mudança para o mercado agrícola nacional, não?

Já há alguns anos a política agrícola vinha andando nessa direção, de dar mais crédito para quem fazia hedge, seguro, se protegia. Agora esse artigo - que não partiu da Bolsa, é importante que se diga - deve dar um impulso a esse movimento.

Gazeta Mercantil - Qual seria o impacto para a BM&FBovespa?

Liquidez gera liquidez. Não posso fazer projeções de crescimento nos volumes negociados, mas certamente daria liquidez [aos contratos de opção de produtos agropecuários].

Gazeta Mercantil - Isso poderia compensar uma retração de investidores especuladores?

Temos esses vetores de redução de volume de negociações por conta da crise internacional. Mas a liquidez dos contratos agrícolas depende de uma série de fatores, como a vontade dos hedgers naturais de entrarem no mercado e a volatilidade dos preços, que faz as pessoas procurarem uma segurança nos mercados futuros e de opções. Nesse sentido, temos vetores também positivos.

Gazeta Mercantil - Outro fator que poderia atrair mais capital para a BM&FBovespa é a parceria com a CME. Como está a integração dos sistemas de ordens?

No ano que vem, o acordo de roteamento de ordens com a CME estará muito mais consolidado. A cara da BM&F vai estar mais exposta no mundo, porque haverá acesso direto entre os mercados CME e BM&F. No último sábado fizemos uma simulação em que as corretoras ganharam acesso aos contratos da CME. Em 2009, com o sistema pronto e o mercado melhorando, será o ano da utilização desse sistema.

Gazeta Mercantil - E falando de maneira mais ampla, como a crise afeta o agronegócio brasileiro?

O agronegócio está sempre enfrentando crises de crédito, diretas ou indiretas. As diretas são quando os preços agrícolas desabam e derrubam a renda, afetando o crédito - e aí vem as renegociações das dívidas e etc. Hoje temos uma crise global de crédito, que não envolve apenas a agricultura, mas que a atinge mesmo sendo indireta. Essa crise bate no agronegócio principalmente na maior fase de desembolso do agricultor, que acabou de plantar e está gastando com defensivos, fertilizantes, diesel.

Gazeta Mercantil - A reação do governo para proteger - ou socorrer - o agronegócio foi correta?

Acho que o governo tomou iniciativas para compensar a retração do crédito privado. Além disso, houve queda dos preços das commodities mas também houve desvalorização cambial. A grande questão vai ser a comercialização da safra e o financiamento da safra seguinte.

Gazeta Mercantil - Como enfrentar a retração no crédito rural?

É preciso buscar alternativas, como os títulos de recebíveis agrícolas, que apresentaram um grande crescimento no ano até novembro. Somando as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e os Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCA), foram emitidos R$ 33,5 bilhões, contra R$ 6 bilhões no mesmo período do ano passado. Isso mostra a importância crescente desses financiamentos privados, em comparação com o crédito rural tradicional. São ferramentas como essas que podem ajudar nessa travessia. Porque do outro lado do rio o agronegócio brasileiro tem um ótimo futuro.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Muda o nosso cliente número 1 do Agronegócio

A China, após longo domínio dos EUA, passa a ser nosso cliente preferencial no agronegócio conforme podemos ver na reportagem do Valor Econômico de hoje descrita abaixo:

China vira maior cliente do agronegócio do Brasil

Pela primeira vez desde 1997, os Estados Unidos deixaram de ser os maiores compradores individuais de produtos do agronegócio brasileiro. E, de forma inédita, a China assumiu o primeiro lugar no ranking dos embarques ao exterior em 2008, informou o Ministério da Agricultura.

O recuo de 2,4% nas importações americanas levou o país ao terceiro posto na lista, com uma participação de 8,7% do total exportado pelo Brasil. Foram US$ 6,25 bilhões. Na outra mão, os chineses compraram 70% a mais e abocanharam uma fatia de 11% das vendas brasileiras com US$ 7,93 bilhões, sobretudo de soja. Mesmo tendo recuado em sua participação, a União Européia fechou 2008 como principal bloco destino dos produtos do agronegócio, com 33%, ou US$ 23,77 bilhões. A fatia da Ásia cresceu para US$ 16,85 bilhões (23,5%) e o Nafta recuou para US$ 7,21 bilhões (10%).

Beneficiadas pelo aumento nos preços internacionais das commodities, redução nos estoques e elevação da demanda nos países emergentes, as exportações do agronegócio atingiram o recorde de US$ 71,8 bilhões em 2008. Com vendas adicionais de US$ 13,4 bilhões sobre 2007, a expansão dos embarques chegou a 23%.

Mesmo pressionado pelo crescimento de 35% nas importações, o superávit da balança comercial do setor atingiu US$ 60 bilhões, um desempenho 21% superior aos US$ 49,7 bilhões. A fatia do agronegócio nas vendas totais brasileiras chegou a 36,3%.

O complexo soja ainda é o carro-chefe das vendas externas do agronegócio, com US$ 18 bilhões. Em seguida, permaneceu o complexo carnes, com US$ 14,54 bilhões. As vendas de soja e carnes saltaram de US$ 22,7 bilhões, em 2007, para US$ 32,5 bilhões. As exportações de lácteos cresceram 80%, de US$ 299 milhões, em 2007, para US$ 541 milhões em 2008.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Embrapa desenvolve alternativa aos fertilizantes importados

A agricultura moderna é cada vez mais dependente de fertilizantes que são derivados do petróleo, além disso o Brasil importa quantidade representativa deste insumo, que no futuro pensará ainda mais em nossa balança comercial. A Embrapa desenvolve pesquisas visando a diminuição desta dependência, bem como um aumento no grau de sustentabilidade de nossa agricultura. A notícia abaixo foi publicada na Gazeta Mercantil de sexta-feira passada:

Projeto reduz dependência externa de nutriente

SÃO PAULO, 26 de dezembro de 2008 - Em parceria com empresas do setor privado, a Embrapa Solos está desenvolvendo fertilizantes orgânicos à base de resíduos industriais. Com isso, o Brasil poderá reduzir a importação de nutrientes, que representa atualmente 75% do total de 30 milhões de toneladas consumidas por ano.

Segundo o pesquisador José Carlos Polidoro, um dos coordenadores do projeto, atualmente o país importa 75% dos nutrientes que consome na agricultura, seja em resíduos orgânicos ou minerais, o que corresponde a um total de 22 milhões a 24 milhões de toneladas por ano. Quanto ao potássio, o país importa anualmente 92% do volume consumido. "E a tendência é aumentar."

A Roda d'Água, de Minas Gerais, foi a primeira empresa privada que procurou a Embrapa, interessada em criar produtos inéditos no mercado de agricultura orgânica, desenvolvendo fertilizantes próprios para a agricultura tropical, para maior aproveitamento dos nutrientes. Polidoro disse que o objetivo da Embrapa Solos é estimula empresas nacionais que já produzem fertilizantes orgânicos por processos não-tecnológicos, baseados na simples compostagem de resíduos orgânicos, oferecendo apoio tecnológico para que seus produtos tenham garantias técnicas mínimas que substituam o produto importado.

Inicialmente, a Embrapa Solos aproveitará resíduos usados pelo grupo Roda d'Água como matéria-prima - resíduos de cervejaria, como bagaço da cevada, fornecido pela Ambev, e do restaurante industrial da montadora de automóveis Fiat, para transformar em fertilizante orgânico. "O que queremos agora é aprimorar esse fertilizante."

De acordo com Polidoro, o produto atende as exigências para registro no Ministério da Agricultura. "Só que não compete com o fertilizante mineral importado, porque tem teor muito baixo de nutrientes." Com esse serviço, a Embrapa busca usar sua tecnologia para colocar no mercado um fertilizante em condições de competir com o importado.

Outro aspecto positivo é a proteção do meio ambiente por intermédio do reaproveitamento de resíduos na produção do fertilizante. Para Polidoro, o uso de fertilizantes adequados é um dos fatores necessários para a agricultura orgânica brasileira alcançar alta produtividade com baixo impacto ambiental. "Aí, torna-se uma atividade profissional, que sempre se deve procurar na agricultura." A terra preta, fertilizante encontrado comumente em supermercados, não é um insumo adequado para sustentar uma agricultura de alto padrão, disse o pesquisador, em entrevista à Agência Brasil.

Oito pesquisadores trabalham no projeto de fertilizantes orgânicos, que usa também resíduos como aparas de grama, carvão, biofortificação e dejetos de cavalos. "Além de ser uma alternativa viável para diminuir a dependência externa de insumos, evita-se o impacto ambiental desses resíduos todos', afirmou Polidoro.

Ele ressaltou que mesmo os produtos importados têm de ser bem aproveitados na agricultura: "Não podemos jogar fertilizante fora, nem deixar que resíduos como potássio sejam destinados a lixões e aterros sanitários, ou que fiquem acumulados em pátios de indústrias. Isso tem de se tornar fertilizante." Para ele, as empresas precisam começar a produzir fertilizante orgânico competitivo a partir de resíduos industriais, com adição de tecnologia. Para a agricultura brasileira, que depende de 75% de fertilizantes importados, trata-se de uma questão de 'segurança nacional', uma vez que o país precisa do agronegócio para manter a balança comercial positiva, disse.

"É um perigo depender tanto de uma importação dessa, porque são poucos os países que exportam nutrientes". Os principais exportadores de potássio são Rússia, Canadá, China e Estados Unidos. Polidoro informou que o único nutriente para fertilizantes produzido atualmente no Brasil é o fosfato, que equivale a 50% do consumo. Em 1993, o país produzia 100% de fosfato. "Tinha até excedente, que exportávamos para a América Latina. Hoje, importamos metade do fosfato". Com elevada reserva de fosfato, Marrocos é o principal fornecedor desse mineral ao Brasil.

As empresas interessadas na parceria para produção de fertilizante orgânico tecnológico devem procurar a Rede Nacional de Fertilizantes, recém-aprovada no Sistema Embrapa de Gestão de Projeto. A rede é liderada pela Embrapa Solos e integrada por indústrias em geral, fábricas de fertilizantes, órgãos de fomento e universidades, além de agricultores. Seu foco central é a diminuição da dependência externa de nutrientes do Brasil.

As informações são da Agência Brasil (Redação - InvestNews)

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Crise fará com que agronegócio recue 3 anos

Segundo nota publicada no Blog Mundo Agro do Portal Exame, apesar dos bons resultados deste anos, a crise, segundo analistas, fará com que o saldo da balança comercial do agronegócio recue para valores de 2006. Na sequência nota na íntegra que também pode ser encontrada no blog clicando aqui:

Um recuo de três anos

O Ministério da Agricultura acabou de divulgar os dados de exportação do agronegócio brasileiro. Os números mostram que, nos primeiros 11 meses de 2008, as vendas externas somaram 67 bilhões de dólares, um crescimento de quase 27% em relação ao mesmo período de 2007.

O saldo comercial da balança comercial do campo também avançou - passou de 45,9 bilhões de dólares para 56,1 bilhões de dólares (também no mesmo período de onze meses). As notícias são muito boas, mas infelizmente os dados não são capazes de mudar o futuro. As projeções para 2009 apontam uma forte redução, decorrente da crise mundial.

A RC Consultores estima que o saldo comercial do agronegócio deve fechar em quase 39 bilhões de dólares no ano que vem, uma queda de 27%. Uma ressalva: as projeções da RC costumam ser menores porque não consideram as exportações de alguns setores ligados ao agronegócio, como o de papel e celulose, por exemplo. De qualquer forma, se a projeção da consultoria se confirmar, o saldo brasileiro voltará quase ao nível de 2006 - ano em o superávit comercial do agronegócio chegou a 35,3 bilhões de dólares. Esse recuo de três anos deixará conseqüências.

A expansão da produção agropecuária deverá ser bem mais complicada na safra seguinte, 2009/2010. O volume menor de dólares entrando no Brasil também irá exercer uma pressão de alta na cotação da moeda americana por aqui. Resultado: o país inteiro pagará a conta.

Por Fabiane Rodrigues Stefano