quinta-feira, novembro 13, 2008

Plantio no MT mostra os sinais da crise

Notícia do Valor Econômico de hoje mostra como está sendo realizado atualmente o plantio da safra de grãos no Mato Grosso e suas consequências:

Sementes de uma safra de incertezas
Patrick Cruz, de Alto Araguaia (MT)

O trator da foto ao lado anda a uma velocidade de 5 quilômetros por hora. Sua plantadeira abre 13 fileiras de sulcos na terra, distantes 45 centímetros uma da outra, nas quais vai largando as sementes de soja que mais uma vez atestarão Mato Grosso como o maior produtor da oleaginosa do país. A soja, por sua vez, é o principal produto de exportação do agronegócio brasileiro. Sozinha, uma reles semente conta a história de uma safra personificada pelas unhas roídas dos agricultores.

A semente foi ao solo já de cabeça baixa. Na safra 2008/09, a produtividade esperada para a cultura em Mato Grosso deverá ser menor que a da temporada 2007/08. Muito por culpa do adubo - ou da falta dele. O preço dos fertilizantes oscila conforme os humores da cotação do petróleo, que atingiu picos históricos no terceiro trimestre, quando as compras de insumos para a safra são feitas. O petróleo despencou desde então, mas o peso para o produtor permanece, já que a taxa de câmbio entre real e dólar subiu - a maior parte do mercado é abastecido com fertilizantes importados.

Para uma produtividade de 50,75 sacas de soja por hectare - abaixo da média de 52,4 sacas da safra 2007/08 -, os custos em Mato Grosso ficam entre R$ 650 a quase R$ 800, a depender do pólo de produção do Estado, segundo cálculos do Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea). Menos fertilizante, mais reza para São Pedro. Que a chuva fique nos conformes e ajude a compensar, ao menos em parte, a diminuição do uso de adubo.

Ao menos nisso, um alento. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê chuvas regulares para todo o Centro-Oeste em novembro, dezembro e janeiro, o que favorece a agricultura. Para Mato Grosso, nesses três meses, são esperados 900 milímetros de precipitações, volume bastante satisfatório para essa época do ano e, é claro, para a lavoura.

Lá vai o trator, lá vai a semente. E vão com atraso. No Centro-Oeste, em outubro, houve acúmulo de 40 milímetros de chuvas, volume bastante inferior à média histórica para o mês, de 170 milímetros. Depois das chuvas habituais do período entre o fim de setembro e o começo de outubro, com o solo mais úmido, é que a semeadura se acelera.

O atraso da descida da semente ao solo ocorreu menos pela demora da chuva em alguns pólos de produção e mais pela oferta modesta de crédito aos agricultores. Seja pela crise global, seja pela oscilação vertiginosa do preço da soja no mercado internacional, que tornou fosco o cenário para o cálculo de custos e projeção de margens, os financiadores ficaram mais arredios. Levantamento realizado em julho pela consultoria Agroconsult mostrou que, em Mato Grosso, as tradings financiarão 34% do custeio total da safra de soja do Estado. Em 2007/08, essa fatia foi de 53%.

O produtor Olívio Frick fala por si, por suas sementes e pelas de todo o Mato Grosso. Em Alto Araguaia, no sudeste do Estado, cultiva soja em 2,5 mil hectares. Na primeira semana de novembro, havia semeado em apenas 300 hectares, um contraste com a safra 2007/08, quando, nessa mesma época, o plantio em sua área já estava praticamente concluído.

Segundo ele, não será possível concluir a semeadura ainda nesta primeira quinzena de novembro - lavouras de Mato Grosso plantadas até o dia 15 costumam ser as de melhor produtividade. "Estou pensando em quitar dívidas e, no futuro, largar a lavoura. É uma pena", afirma, para, ao questionar, argumentar: "Mas o que se há de fazer?" Na vida acadêmica, suas duas filhas optaram pelas carreiras de medicina e direito. "Uma delas queria seguir a agricultura, mas por mim, e não por ela. Mas, se é só por mim, que não faça. É melhor".

Frick partiu do Rio Grande do Sul natal e chegou a Mato Grosso no dia 21 de agosto de 1976, um sábado. "Na quarta-feira eu já tinha um trator", lembra. "No tempo daquele alemão [o ex-presidente Ernesto Geisel] a coisa era mais fácil", fala ele em sua lógica própria. "A gente tinha calcário para jogar até nas pedras".

O calcário, mineral usado para corrigir a acidez do solo, já estava no campo quando, com atraso, o trator iniciou sua jornada (aos 5 quilômetros por hora, uma semente de quando em quando, 13 sulcos distantes 45 centímetros um do outro). Sobre o trator e no apoio, mão-de-obra que custa, na média, R$ 13,58 por hectare em Diamantino, um dos pólos da sojicultura de Mato Grosso, e R$ 22,92 em Sorriso.

A semente que o trator libera custaria R$ 60,55 por hectare no município de Sorriso e R$ 115,50 em Sapezal, em cálculos que têm sempre como parâmetro uma produtividade de 50,75 sacas por hectare. Semente que tem demanda firme, apesar dos pesares, de acordo com a Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem). Seu consumo deverá crescer 20% neste ano, segundo a entidade. O volume de 2007 foi de 950 mil toneladas.

Dos insumos, a compra de defensivo - ou "veneno", para os íntimos - costuma sempre ocorrer depois. Os levantamentos trimestrais feitos pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA) vinham atestando queda na chamada relação de troca - paulatinamente caiu o número de sacas de soja necessárias para comprar o "coquetel" usado na lavoura. O preço do glifosato, herbicida largamente usado nas plantações, em contrapartida, subiu - e, como no caso do adubo, também na cauda do petróleo. O petróleo caiu, mas, com a valorização do dólar, o glifosato em particular e os defensivos em geral, quando importados, tendem a ficar mais caros.

Lá vai o trator, lá vai a semente. "Dá até um desânimo", diz o técnico agrícola de prenome Reginaldo. "A coisa está difícil este ano". Ao discorrer genericamente sobre os empecilhos da safra, fala de fertilizante, de plantio atrasado. Suas entrelinhas, contudo, falam de bolsa de Chicago, de contratos futuros, de margem de comercialização, de fundos de hedge - que incharam o volume de negócios na busca por rentabilidades que estavam acima das obtidas na compra e venda de outros ativos, como ações de empresas - e o estouro da inflação das commodities agrícolas, do famigerado gargalo logístico no escoamento da produção agrícola brasileira.

O lacônico "dá até um desânimo" também se explica pelo ritmo moroso das vendas da soja. A comercialização antecipada da oleaginosa é um dos caminhos para o produtor financiar seu plantio, mas a ferramenta não apresenta na safra 2008/09 o vigor do ciclo anterior. Primeiro, os financiadores recusaram-se a acertar a compra de soja quando, no início do semestre, seu preço superou os US$ 16 por bushel (medida que equivale a 27,2 quilos) na bolsa de Chicago, referência para a formação de preços.

Veio a crise global, veio o tombo da soja. Como os custos dos produtores subiram de uma safra a outra, e como a cotação do grão recuou, eles é que agora aguardam o momento de efetuar as vendas, à espera de preços melhores. Balanço da Agência Rural apontou que, até agosto, 16% da produção prevista para o país já havia sido comercializada. Na mesmo época de 2007, a venda já havia chegado a 38%.

A alta do dólar pode encarecer os insumos importados. Por outro lado, tende a elevar a receita com as exportações. No câmbio de R$ 1,80 de setembro, conseguiria-se US$ 338,98 por tonelada com o embarque ao exterior da soja que parte de Sorriso, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola. Os produtores esperam que a alta do dólar ajude a compensar os percalços do caminho.

Tome-se o cenário hipotético de custos e receitas do pólo de Diamantino. A receita por hectare calculada pelo Imea em setembro era de US$ 752,49 por hectare. Os custos variáveis (sementes, defensivos, fertilizantes, mão-de-obra capital de giro, armazenagem), por seu lado, chegavam a US$ 943,05 para uma produtividade esperada de 50,75 sacas por hectare. Rentabilidade negativa de 20% sob esse cenário. Os números variam para mais ou para menos a depender da localização do município - muito por conta do maior ou menor gasto com o óleo diesel do transporte da carga -, mas o fio da meada é o mesmo.

Petróleo, fundos de hedge, chuva, oscilação do câmbio e das commodities agrícolas, vendas antecipadas, crise global, encarecimento do veneno, "dá até um desânimo", comércio exterior. Uma semente não é só uma semente. Mas lá vai o trator.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Apesar da crise, safra mundial de grãos bate recorde

Na mesma edição de hoje do Valor Econômico que comenta a queda na safra brasileira de grãos, foi publicada a reportagem abaixo que aponta, segundos estudos da FAO, para uma produção recorde de graõs no mundo com a oferta superando a demanda:

Oferta global de cereais vai superar a demanda em 2008/09, prevê FAO

A produção mundial de cereais deverá alcançar 2,242 bilhões de toneladas na temporada 2008/09, conforme estimativa divulgada na quinta-feira pela FAO, braço da ONU para agricultura e alimentação. A safra está em fase de colheita no Hemisfério Norte e de plantio abaixo da Linha do Equador - inclusive no Brasil. Se confirmado, o volume projetado será 5,3% superior ao do ciclo 2007/08 e marcará um novo recorde histórico.

Em comunicado, a FAO destaca que, pela primeira vez nos últimos quatro anos, sua projeção para a produção é mais do que suficiente para atender à demanda prevista, uma vez que em 2007/08 o "superávit" foi marginal (ver quadro). Reflexo desse quadro mais confortável é a estimativa da agência da ONU para os estoques finais mundiais, que, tudo indica, também deverão aumentar.

A demanda total ao longo da temporada 2008/09 foi calculada em 2,197 bilhões de toneladas, 3,3% mais que na safra passada. Trata-se de um percentual de crescimento menor que o projetado para a produção, e esse descasamento resultou em estoques finais globais de 474 milhões de toneladas no ciclo atual, 9,4% maior.

Em tempos menos contaminados pelas movimentações financeiras nos mercados de commodities, a confirmação das previsões da FAO - que, em grande parte, dependerá do comportamento do clima no Hemisfério Sul nos próximos meses - significaria uma tendência de preços mais baixos dos alimentos pelo menos até o primeiro trimestre do próximo ano, e esta é uma grande preocupação desse braço das Nações Unidas.

Em 2007/08, a disparada das cotações de produtos como trigo, soja, milho e arroz no mercado internacional, que atingiu o ápice no primeiro semestre deste ano, elevou o número de pessoas subnutridas no mundo para cerca de 923 milhões. A recente queda de preços nas bolsas, diz a FAO, ainda não chegou aos consumidores da maioria dos países.

No longo prazo, alerta, a agricultura global enfrentará grandes desafios cujas soluções precisam começar a ser desenvolvidas agora. Haverá menos terras e água disponíveis, menos investimentos em infra-estrutura rural e pesquisas agrícolas, aumento de custos de produção e mudanças climáticas. É neste cenário que mais de 9 bilhões de pessoas terão de ser alimentadas até 2050, conforme as projeções atuais, e para isso a oferta terá mais do que dobrar.

Custos maiores fazem safra 2008/2009 ser menor do que a anterior

Nesta safra, devido principalemente aos custos elevados e menor utilização de tecnologia, o resultado será menor quando comparado à safra anterior. Leia na sequência reportagem do Valor Econômico de hoje que fala sobre o assunto:

Conab vê colheita menor e programa intervenções

Afetada pela explosão nos custos de produção e pela falta de crédito barato, sobretudo na região Centro-Oeste, a nova safra de grãos, fibras e cereais será menor do que previa inicialmente o governo. Na média das previsões divulgadas ontem pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita total deve recuar para 140,75 milhões de toneladas, um resultado 2,2% inferior ao recorde histórico de 143,82 milhões de toneladas registrado no ciclo anterior. A área plantada deve registrar expansão de até 1,2%, para 47,95 milhões de hectares.

Embora trabalhe com dois cenários para a produção na campanha 2008/09, um mais otimista que prevê 141,83 milhões de toneladas (queda de 1,4%) e outro mais pessimista, estimado em 139,65 milhões (- 2,9%), há um consenso nas previsões da Conab: a necessidade de intervenção do governo na comercialização da safra, a partir de fevereiro de 2009, como forma de evitar uma queda abrupta nos preços ao produtor durante o auge da colheita.

Entre subsídios diretos "na veia" e ações de sustentação de preços, a Conab tem reservados R$ 1,5 bilhão para comprar até 6,65 milhões de toneladas de grãos, fibras e cereais. Os planos da Conab incluem o uso de R$ 470 milhões para sustentar as cotações de algodão, outros R$ 353 milhões para apoiar a comercialização de 2,66 milhões de toneladas de milho e R$ 175,5 milhões para auxiliar 1,5 milhão de toneladas de trigo.

Também há R$ 180 milhões para apoiar 1,5 milhão de toneladas de arroz e R$ 5 milhões para 100 mil toneladas de feijão, além da previsão de R$ 318 milhões para enxugar até 190 mil sacas de café no mercado. Para a soja, mesmo com os problemas de falta de financiamento de tradings e fornecedores de insumos, nada está previsto. "Queremos garantir renda ao produtor com o menor impacto possível sobre os preços ao consumidor", resume o diretor de Logística da Conab, Sílvio Porto.

O governo também reservou R$ 2,3 bilhões para promover a aquisição direta de 5,9 milhões de toneladas de vários produtos e garantir a recomposição dos estoques públicos de passagem, usados em épocas de combate à inflação. A Conab estima comprar 4 milhões de toneladas de milho a um custo total de R$ 940,1 milhões e 1,65 milhão de toneladas de arroz com R$ 825,5 milhões.

Também prevê gastar R$ 80,7 milhões na aquisição direta de 100 mil toneladas de feijão; R$ 73,4 milhões na compra de 24,7 mil toneladas de algodão; e R$ 50,3 milhões com 135 mil toneladas de trigo.

A previsão de safra divulgada ontem pela Conab mostra que a produção do Centro-Oeste sofrerá os maiores impactos da crise de crédito iniciada com a saída do mercado de tradings e fornecedores de insumos, tradicionalmente os maiores financiadores do setor na região. A redução da área plantada ficaria entre 1,7% e 3,4%, segundo a Conab. A produção recuaria de entre 5,5% a 7,3% - de 46,73 milhões até 47,64 milhões de toneladas. "A soja tem a maior relação com a retração das tradings e dos bancos privados, mas o governo dará um apoio na comercialização", afirma Sílvio Porto. "Não tenho dúvidas de que teremos que entrar no mercado".

Mesmo com as previsões sombrias, a Conab ainda guarda um otimismo com o futuro da nova safra. A origem está na elevação de 4,1% nas entregas de fertilizantes até setembro deste ano. Em Mato Grosso, o crescimento foi de apenas 3,5%, mas os produtores de Goiás compraram 9,5% mais adubos no período. "É um reflexo da ação das tradings. Mas ainda é um cenário altamente positivo. Não é apologia, mas dados que nos permitem fazer essas projeções", afirma o diretor.

Em sua previsão, a Conab estimou recuo na produção de soja, de 60 milhões de toneladas para até 58,39 milhões, a depender do cenário. Para o milho, a colheita deve ficar entre 54,3 milhões e 55,2 milhões de toneladas.

terça-feira, novembro 04, 2008

Crise não abala consumo de carnes

Em notícia publicada hoje no Portal Exame, a Reuters informa que o JBS Friboi avalia que a demanda de carnes não caiu com a crise e continua forte:

JBS vê consumo de carne firme e foca oportunidades no Mercosul
Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) - O brasileiro JBS, grupo que mais abate bovinos no mundo, com operações nos Estados Unidos, Europa, América do Sul e Austrália, avalia que a demanda por carne continuará firme, apesar da crise global, e prevê crescer mais suas operações em 2009, focando especialmente o Mercosul.

"Verificamos que nos últimos anos, em todas as crises, se houve redução no consumo em tonelagem, não houve grandes oscilações", afirmou o presidente do JBS, Joesley Mendonça Batista, em entrevista à jornalistas.

Embora avalie que tanto o volume abatido quanto o consumido deva variar pouco nos próximos três a quatro anos, uma vez que a oferta no ciclo da pecuária é "inelástica", ele admitiu que o preço, "de fato", pode oscilar, sem dar mais detalhes.

No terceiro trimestre de 2008, a empresa abateu 2,95 milhões de cabeças de bovinos, aumento de 22,2 por cento em relação ao mesmo período de 2007 e alta de 2,4 por cento ante o segundo trimestre deste ano.

Batista disse ainda que vê nos momentos de turbulência financeira oportunidades para crescer. "Temos conseguido produzir resultados nos mais adversos cenários, de farta liquidez ou de falta de liquidez... Temos DNA de crescer e tenho certeza que vamos continuar crescendo", afirmou ele.

Entretanto, ele indicou que a empresa não pretende realizar novas aquisições em 2008, aguardando algum "tempo para entender o aperto de liquidez". "Em 2008 não vamos fazer nada, estamos preparados para seguir crescendo em 2009, no Mercosul", observou o presidente, destacando que a empresa tem recursos suficientes em caixa. Empresas com problemas financeiros no Brasil e Argentina poderão ser os alvos.

CÂMBIO E EUA REFORÇAM LUCRO

No final da noite de segunda-feira, o JBS divulgou o seu melhor resultado trimestral da história, que atingiu no terceiro trimestre 694 milhões de reais, contra prejuízo de 78,3 mmilhões de reais na mesma época do ano passado e perdas da ordem de 364 milhões de reais no segundo trimestre do ano.

Parte da diferença no lucro veio, segundo Batista, da valorização dos ativos da empresa no exterior, com a alta do dólar frente ao real, e também das operações de hedge para proteger a empresa de tais variações do câmbio --anteriormente, a empresa registrara prejuízos, sem efeito caixa, justamente pelo movimento contrário da moeda brasileira.

Segundo Batista, a empresa, com 80 por cento de sua geração de caixa na moeda norte-americana, ainda não foi beneficiada no operacional pela valorização do dólar, o que deve ocorrer com maior força no quarto trimestre.

De qualquer forma, ele destacou o resultado expressivo das operações de bovinos do JBS EUA, cujo Ebitda (ganhos antes de juros, impostos, depreciação e amortização) subiu 1.441,6 por cento em relação ao terceiro trimestre de 2007, para 155,6 milhões de dólares, um recorde.

"A Swift dos EUA (atual JBS) experimentava resultados inferiores ao da indústria. Um ano depois, operamos acima da mediana", salientou Batista, lembrando que enquanto as vendas externas totais norte-americanas cresceram 33 por cento este ano, as do JBS aumentaram em 64 por cento.

FORÇA PARA BRIGAR NOS EUA

Durante o terceiro trimestre, o governo dos EUA aprovou uma das aquisições do JBS, a unidade de carne bovina do grupo Smithfield e suas operações de confinamento, negócio este já finalizado. Mas o JBS afirmou que continuará tentando na Justiça dos EUA a aprovação da National Beef, cuja compra foi anunciada em março, juntamente com o negócio da Smithfield, mas bloqueada pelo Departamento de Justiça.

"Temos um projeto de longo prazo... (A National Beef) é relevante para o aumento de nossa competitividade, para brigar com as gigantes dos Estados Unidos, como Cargill e Tyson. Temos que ter tamanho equivalente para disputar com as gigantes."

Entrevista com o ex-ministro Roberto Rodrigues

O ex-ministro Roberto Rodrigues deu uma entrevista ontem à Gazeta Mercantil onde comenta como a crise pode trazer boas oportunidades para o agronegócio brasileiro. Abaixo a entrevista:

TODA CRISE CRIA OPORTUNIDADES, DIZ EX-MINISTRO ROBERTO RODRIGUES

Da "bolha econômica" furada pela concordata do Lehman Brothers ainda escorre o crédito, ou a escassez dele, que já não sacia mais o apetite do agronegócio brasileiro. Problema que para o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues já havia se instalado antes mesmo do fatídico 14 de setembro, que marcou a quebra da instituição financeira americana e o início da atual crise mundial.

O coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e presidente do Conselho Superior de Agronegócios da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), é capaz até de prever o "pior dos mundos", sem, no entanto acreditar nele.

Escassez de crédito, descapitalização do setor produtivo - e a conseqüente perda da capacidade de investimento -, endividamento, inflação, perda da capacidade de exportação e o inevitável desmanche do superávit da balança comercial. Essas seriam conseqüências que a economia brasileira poderia experimentar caso não aproveitasse as oportunidades geradas pela crise e já avistadas por Rodrigues.

Segundo ele, "toda crise gera também oportunidades", para aproveitá-las bastaria criar e administrar os instrumentos de regulação adequados. Um deles seria a política de "preços mínimos", prevista em lei e, de acordo com o ex-ministro, capaz de trazer à balança comercial brasileira do agronegócio, mercados que certamente serão abandonados pelos países desenvolvidos em decorrência do atual momento econômico, - solução que passa pela garantia de viabilidade da safra 2010. Garantia essa que só poderia ser conquistada mediante a liberação de crédito rural, recurso oferecido pelo governo federal e pela força de medidas, mas que não consegue atravessar com tanta facilidade o caminho dos bancos para alcançar o produtor agrícola.

Em entrevista à Gazeta Mercantil, Roberto Rodrigues aponta a direção a ser seguida pelo crédito e pelo governo para que o País encontre o atalho da maior crise financeira dos tempos modernos.

Gazeta Mercantil - Qual a conseqüência imediata dessa retração de crédito agravada pela crise econômica?

Estamos diante de uma safra cara e com menos crédito, seja por problemas anteriores e nacionais, seja por problemas agravados por causa da crise. Esse fato tem dois reflexos naturais, o primeiro é uma redução da área plantada. A expectativa que se tinha de crescimento já está sendo desmanchada, tanto é verdade que o setor de fertilizantes que teve o melhor primeiro semestre da história, tem um dos piores segundos semestres, houve então uma reversão das expectativas. A outra questão é a redução do padrão tecnológico.

Como o crédito está muito mais caro, o agricultor acaba usando menos tecnologia e restringe o horizonte produtivo lá na frente. Isso já é dado, já aconteceu. O que ainda pode acontecer é um desânimo dos produtores em relação à safra que vai ser plantada em 2009.

Gazeta Mercantil - Esse desânimo é generalizado? Como essa redução de área cultivável vai impactar na relação oferta/demanda?

Os países desenvolvidos vão provavelmente diminuir o plantio e ficar pedalando a safra porque terão "target price" (preço mínimo). Isso significa uma menor oferta de produtos agrícolas para 2010. Ano que vem já está garantido, não tem mais o que discutir. Na hipótese, que eu considero pouco provável, de os preços caírem durante a colheita da nossa safra a partir de março, nós viveríamos o pior dos mundos.

Teríamos uma safra cara com pouco crédito, baixa produtividade e preços ruins. E se isso acontecesse, haveria uma brutal descapitalização do setor, perda de capacidade de investimento e endividamento. Ficaríamos com uma reduzida capacidade de plantar a safra em 2009 de modo que no ano seguinte teríamos uma safra pequena no Brasil, somada à uma safra pequena no hemisfério norte.

Essa situação levaria à uma inflação de alimentos e uma redução na capacidade de exportação desmanchando nosso superávit comercial. Seria um desastre para o País.

Gazeta Mercantil - E como evitar esse desastre por aqui?

Precisamos transformar o risco em oportunidade, e esse instrumento já existe. Há uma lei no dos anos 70 chamada PGPM - política de garantia de preços mínimos -, é uma lei que permite que o governo interfira caso o mercado pratique um preço abaixo daquele estabelecido pelo governo, seja comprando, seja financiando a estocagem, seja pagando a diferença entre o preço de mercado e o preço mínimo de garantia. Precisamos fazer um recálculo desses preços com base no comportamento do mercado nos últimos dias, e ainda colocar no orçamento do ministério da Agricultura recursos orçamentários suficientes para executar a política de preços mínimos.

Gazeta Mercantil - Isso aceleraria o processo de viabilização de crédito?

A aventura acabaria porque o produtor sabe que vai plantar com garantia que vai receber um preço mínimo lá na frente. Os bancos perdem o medo do risco porque esse preço mínimo também é garantia de retorno de investimentos. É hora do governo ressuscitar um instrumento que já existe por lei e basta decisão política e obviamente econômica. Se isso acontecer o governo dará ao País uma oportunidade formidável de em 2010, com uma safra boa, ocupar mercados que serão perdidos por outros países. E o governo está sendo muito ativo no processo. A Câmara dos Deputados já está analisando o orçamento para voltar a praticar a política de preços mínimos. Esse é um cenário onde a crise pode ser transformada em uma grande oportunidade para a agricultura e para o Brasil. Mas, além disso, tem um outro problema ainda mais emergencial que são os ACC’s (Adiantamento de Contrato de Câmbio).

Gazeta Mercantil - Como garantir à indústria do agronegócio o fluxo das exportações, e à balança comercial brasileira o peso da receita que vem do mercado internacional?

O governo tá prometendo resolver isso (o problema dos ACC’s) rapidamente via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social), mas existem alguns setores que já estão estrangulados, um deles, o mais estrangulado, é o setor sucroalcooleiro. As usinas que exportam açúcar e álcool não estão conseguindo financiamento para exportação e não podem pagar os produtores de matéria-prima, com isso a renda rural vem sendo represada lá atrás, o que tem um efeito dominó muito negativo sob as regiões canavieiras. Este problema por enquanto está restrito à área canavieira, mas já se aproxima dos frigoríficos, do suco de laranja e de qualquer outro segmento agroindustrial que esteja alavancado em dólar. A alocação de recursos de ACC’s é absolutamente indispensável para destravar a questão da renda rural nas cadeias produtivas que dependem da industrialização.

Gazeta Mercantil - A agricultura brasileira viveu uma crise em 2004 e agora, quatro anos depois, já enfrenta uma nova turbulência. Esse curto período de alta não foi suficiente para o produtor se recuperar. Como o governo deve intervir nessa situação de endividamento explícito?

O governo encaminhou uma solução de rolagem dessa dívida, mas o assunto não foi encerrado ainda, e é por isso que uma parcela de produtores que tinham dívidas e não puderam rolar essas dívidas perderam acesso ao novo crédito. Aí entra a burocracia pública, que inibe a rapidez do processo, que por sua vez se cristaliza.

Gazeta Mercantil - Qual a real capacidade de crescimento da agropecuária brasileira?

380 milhões de toneladas de grãos é o número limite da nossa capacidade de produção e não há tempo limite para chegar lá, pode demorar 50 ou 15 anos. Temos um crescimento potencial horizontal para dobrar a área. Nós temos hoje 72 milhões de hectares cultivados e outros 96 milhões de hectares ocupados com pastagem perfeitamente agricultáveis. Além disso existe a possibilidade de crescimento vertical. A produtividade média de milho no Brasil hoje é de 72 sacas por hectare, mas os campeões do Paraná chegam a 200 sacas.

Gazeta Mercantil - E como essa produção brasileira vai abastecer o mercado externo?

Nos últimos sete anos, a produção mundial de grãos foi 120 milhões de toneladas menor do que o consumo, ou seja, houve um déficit. E o Brasil nesse período teve um superávit de 160 milhões de toneladas.

Se não fôssemos nós esse déficit global seria de quase 300 milhões de toneladas. Então o Brasil já vem sendo um País diferenciado nesse cenário global. Em termos de mercado, avançamos mais em relação aos países em desenvolvimento, os emergentes, porque a renda per capita deles cresce mais que a renda per capita dos países desenvolvidos, e a população também. Nos mesmo sete anos, nós tivemos um crescimento ao ano de 11% das exportações para os países desenvolvidos - o dobro da média mundial -, mas para os países emergentes nós exportamos 21% a mais. Então temos um potencial que poucos têm de conquistar esse mercado, mas para isso nós temos que cuidar da renda rural através de instrumentos de crédito adequados, temos que ter uma logística melhor. Nós estamos sucateados em termos de rodovias, ferrovias, portos. Temos que fazer investimentos vigorosos e o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) está aí para isso. Temos que fazer a promoção comercial e acordos bilaterais para abrir mercados.

Gazeta Mercantil - Como deve se comportar a demanda mundial, tanto por proteína animal, quanto por grãos? E os preços?

Todas as previsões são de um crescimento da demanda mundial por proteína animal e por oleaginosas, bem como frutas e legumes, e uma redução de raízes, tubérculos e cereais não protéicos. Essa é uma tendência irrecorrível. Se você olhar para o mercado mundial agrícola vai ver que os preços têm uma ciclotimia sistêmica determinada pela oferta e demanda, porém a resultante dessa ciclotimia é uma tendência permanente declinante de preços. Isso porque a tecnologia aumenta a oferta, e se a demanda não aumentar na mesma direção os preços sistematicamente caem, razão pela qual eu questiono o discurso de que teria acabado o tempo dos alimentos baratos. Isso está errado, os preços tendem a cair. O que acontece hoje é um movimento de demanda superior à oferta determinado pela renda crescente nos países em desenvolvimento. Com a crise passou a haver uma pressão sobre essa demanda que poderá determinar uma redução do consumo dos produtos de maior valor agregado como a carne, mas é uma curva da crise, tanto pode ser para baixo da tendência ou para cima, mas ela é sempre declinante, de forma que em qualquer circunstância essa curva será superada por outra curva. Tendência essa que continuará no longo prazo. Vales ou picos de preços, e também a demanda de consumo, fazem parte dessa resultante.

Gazeta Mercantil - E sobre as novas fronteiras agrícolas?

Os eixos de avanço da agricultura são suportados pela logística. Quando eu era ministro, o Maranhão tinha uma logística desenhada e vantagens tributárias dadas pelo governo de lá em relação ao ICMS.

Hoje, no Piauí tem uma logística interessante, indústrias estão indo para lá fazer a moagem na região. Então o que vai determinar esses eixos de crescimento em direção às novas fronteiras é a logística, que hoje ainda consome 20% do PIB brasileiro.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Projeções otimistas do Ministério da Agricultura para 2018/2019

Foi divulgada semana passada, as projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para a safra 2018/2019. Com base nestas informações, a blogueira Fabiane Stefano do Blog Mundo Agro da Exame publicou o post abaixo e ainda na sequência temos uma figura publicada na Exame mostrando outros dados interessantes sobre a competitividade do agronegócio brasileiro publicados na última edição:

Otimismo versus otimismo
O Ministério da Agricultura acabou de lançar uma série de projeções para o agronegócio brasileiro nos próximos dez anos.

O trabalho analisa 18 produtos agrícolas. Com exceção do algodão, que permanecerá estável, todas as outras culturas terão aumentos expressivos de produção até 2018.

Os destaques ficam para o etanol (que passa de 22 bilhões para 59 bilhões de litros) e para o frango, a carne bovina, o trigo e o açúcar, com crescimentos de 57%, 49%, 46% e 44%, respectivamente.

O desempenho do agronegócio tem sido alvo de estudos de longo prazo - especialmente quando se trata de duas das principais commodities agrícolas: a soja e o milho.

A Agroconsult, consultoria especializada no setor de grãos, também fez seus cálculos para a safra 2018/2019. Ela projeta que a produção de soja chega a 108 milhões de toneladas - contra os 80,9 milhões estimados pelo ministério. Pela Agroconsult, a colheita de milho também vai ultrapassar as 100 milhões de toneladas (praticamente o dobro da produção atual), número bem superior ao projetado pelo governo.

O que difere nas análises do ministério e da Agroconsult é o grau de otimismo. As conclusões do governo são mais conservadoras - e é até natural que sejam mesmo. Já a consultoria, com uma percepção mais de mercado, aposta num avanço mais agressivo.

O certo é que as duas apontam para um aumento forte na produção agrícola. Minha preocupação: se hoje não há logística (para ficar apenas nesse item) que dê suporte ao setor, o que será do escoamento da produção agrícola em 10 anos?

Monsanto entra no negócio da cana-de-açúcar

Apagada pela fusão histórica do Itaú com o Unibanco, hoje foi informada ao mercado a entrada da Monsanto na indústria da cana-de-açúcar com a aquisição de duas empresas relacionadas ao setor: Canavialis e Alellyx. Estas empresas pertenciam à Votorantim.

Abaixo segue a notícia na íntegra publicada pela Reuters:

Monsanto paga US$290 mi por pioneiras em biotecnologia no Brasil

SÃO PAULO (Reuters) - A norte-americana Monsanto, líder global em biotecnologia para a agricultura, anunciou nesta segunda-feira que pagará 290 milhões de dólares pelas operações das brasileiras Alellyx e CanaVialis, empresas do grupo Votorantim que atuam no desenvolvimento tecnológico de variedades agrícolas, com ênfase em cana-de-açúcar.

O negócio permitirá à multinacional a diversificação de seu portfólio agrícola e também, segundo a empresa, leva em conta o potencial da cana-de-açúcar para a produção de etanol.

"A demanda global por açúcar bruto e por biocombustíveis está começando a crescer em uma velocidade maior que os níveis atuais de produção de cana-de-açúcar, uma cultura essencial para atender essas demandas", disse o vice-presidente executivo de estratégia global da Monsanto, Carl Casale, em um comunicado.

A Alellyx, empresa que atua em desenvolvimento biotecnológico desde 2002, e a CanaVialis, que trabalha com melhorias de variedades de cana-de-açúcar desde 2003, já tinham acordos com a Monsanto, firmados em 2007, para o desenvolvimento de cana resistente ao herbicida glifosato (Roundup Ready) e ao ataque de insetos, com a tecnologia Bt.

"O expertise da Monsanto combinado com os conhecimentos da CanaVialis e Alellyx vão ajudar produtores a aumentar substancialmente a produtividade em um período mais curto de tempo", declarou o diretor-executivo da Votorantim Novos Negócios, Fernando Reinach.

A CanaVialis tem contratos com 46 usinas de cana no Brasil que produzem em uma área de 1,1 milhão de hectares.

Segundo a Monsanto, com o negócio a empresa tem o objetivo de aumentar a produtividade da cana, ao mesmo tempo em que reduz o volume de recursos necessários para o cultivo.

Quando os produtos melhorados geneticamente estiverem sendo utilizados, as empresas prevêem redução dos custos de produção nos canaviais, uma vez que vários agroquímicos deixarão de ser aplicados, tanto para o controle de ervas daninhas como para o controle de insetos.

A cana com tecnologia Bt seria resistente à broca (Diatraea saccharalis), um inseto cuja larva se alimenta da gramínea. Essa é uma das principais pragas da planta, que atualmente é combatida por meios químicos e biológicos. O mesmo gene poderia combater também a cigarrinha, outra "praga" da cultura, insetos esses que tendem a aumentar com a gradativa redução das queimadas da palha, com o avanço da colheita mecânica.

No caso da cana Roundup Ready, ela poderia ser bastante útil nas plantações que irão se desenvolver em áreas de pastagens degradadas. A cana resistente ao herbicida poderia ser eficiente em áreas que têm o capim-braquiária, de difícil combate atualmente. Hoje essa erva é retirada de plantações de cana por meio da capina ou por uma cuidadosa aplicação do herbicida.

A Alellyx é uma empresa pioneira na área de biotecnologia no Brasil. Ela foi fundada por um grupo de biólogos moleculares que haviam trabalhado no sequenciamento genético da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da praga do amarelinho nos cítricos, bem como de outros organismos dentro de Projetos Genoma paulistas, brasileiros e internacionais.

(Texto de Roberto Samora; edição de Marcelo Teixeira)