domingo, setembro 21, 2008

FAO considera exemplares práticas de pecuária do Brasil

Nós sabemos de longa data que o Brasil é líder em tecnologia de agricultura tropical e pecuária, entretanto, quando a FAO reconhece publicamente o reconhecimento toma outra dimensão.

A reportagem abaixo foi encontrada na seção de Agronegócios do Cosmo:

Agropecuária brasileira é modelo, segundo FAO

Algumas práticas adotadas foram consideradas um exemplo de estratégia de pecuária associada ao desenvolvimento
Agência Brasil

Algumas práticas adotadas na agropecuária brasileira foram consideradas um exemplo de estratégia de pecuária associada ao desenvolvimento sustentável e recomendadas pela Comissão de Desenvolvimento da Pecuária para a América Latina e o Caribe (Codegalac), da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), capítulo Cone Sul., durante a sua 10ª reunião.

No encontro, que terminou hoje (19) e foi realizado em parceria com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o principal alerta foi o crescimento de mais de 3,7% por ano da pecuária na região, relacionado à redução da área de florestas. De acordo com a Codegalac, 70% dos pastos hoje estão em processo de degradação.

Esse processo aumenta a vulnerabilidade às mudanças climáticas e à produção de gases de efeito estufa. Além disso, a Amazônia está entre os ecossistemas mais afetados com a expansão da agropecuária.

No entanto, os países do Cone Sul, maiores exportadores de carne no mundo, devem ter mais oportunidades no mercado mundial, já que a expectativa é que o consumo de carne seja duplicado nos próximos 20 anos.

Como os principais importadores de carne exigem cada vez mais que a produção ocorra em áreas ambientalmente sustentáveis, os governos devem desenvolver urgentemente mecanismos e políticas para conter o avanço para área vulneráveis, o que aumenta os níveis de desmatamento, degradação do solo, perda de biodiversidade e de recursos hídricos.

Os países devem contar com apoio da FAO para formular uma marco orientador para desenvolver políticas e programas de gestão agro-ambiental e inovação tecnológica, além da recuperação de áreas já degradadas pela agropecuária.

Vai ser criado um grupo de trabalho de centros de pesquisa da região, liderado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), para elaborar uma proposta de ação e avaliação técnica, econômica e ambiental das tecnologias disponíveis para recuperação das áreas degradadas e intensificação sustentável da produção pecuária.

quinta-feira, setembro 18, 2008

Uso da terra no Brasil, um texto para análise

No "Estado de São Paulo" de quarta-feira foi publicado um texto muito interessante sobre a utilização das terras agrícolas no Brasil

Uso da terra e produção agropecuária
André Meloni Nassar

Dos diversos temas ligados ao meio ambiente que vêm ganhando relevância na sociedade brasileira, o que mais atinge a produção agropecuária e silvícola é a questão do uso da terra. Mesmo no Brasil, país privilegiado em disponibilidade de terras para produção e conservação, não se pode negar que a terra é um recurso escasso. Essa parece ser a razão imediata que justifica por que a mudança do uso da terra, provocada pela expansão da produção agrícola e de florestas plantadas, passou a ser critério de avaliação de sustentabilidade de ambos os setores. A boa notícia é que há tempos o tema deixou de ser visto como tabu pelas diferentes cadeias produtivas.

O debate sobre uso da terra ganhou importância porque a agropecuária - englobando as áreas ocupadas com lavouras anuais, permanentes e pastagens - e a produção florestal são os setores produtivos que demandam os maiores volumes de terra no País. Na realidade, a agropecuária e as florestas plantadas ocupam, juntas, uma parcela do território brasileiro menor que a ocupada por formas não-produtivas de uso, como reservas indígenas e unidades de conservação. Partindo de um ponto de vista essencialmente ambiental, essas atividades produtivas respondem a fatores de mercado e, por isso, seguiriam na direção contrária da necessidade de conservar e preservar as florestas, a biodiversidade e a paisagem natural, que são formas de ocupação do solo de baixo custo de oportunidade. A conversão de paisagens naturais em produção agropecuária ou florestal - sem se preocupar ainda com que tipo de atividade é o carro-chefe do processo - é vista com importância ainda maior quando se trata do bioma Amazônia.

Mas não é apenas o tema da conversão de terras virgens em áreas produtivas que está em jogo. Por particularidades da legislação ambiental brasileira, os produtores agrícolas e de florestas carregam um não desprezível passivo de reserva legal e, ainda que de menor intensidade, de áreas de preservação permanente. Apesar dos inúmeros questionamentos jurídicos que pairam sobre o Código Florestal de 1965, emendado a última vez via medida provisória em 2001, a legislação ambiental traz ao produtor, proprietário ou possuidor da terra a obrigação de preservar.

No entanto, além das exigências impostas sobre as áreas já abertas, a expansão da produção sobre novas áreas também está sob crítica, seja porque desmatar se transformou em atividade não aceita no Brasil e no exterior, seja porque grande parte das áreas virgens se encontra resguardada na forma de unidades de conservação, reservas indígenas, etc. A defesa legítima de que o setor produtivo deve contribuir com sua parcela para a conservação, aliada a pressões não necessariamente defensáveis do ponto de vista legal contra a possibilidade de expansão das áreas produtivas, cria um ambiente não saudável de competição e disputa entre produção agropecuária e florestal e preservação ambiental.

As conexões entre uso da terra e produção agrícola e florestal se dão, dessa forma, em duas vertentes: 1) Com a contribuição da expansão da produção para o desmatamento, sobretudo nas regiões do bioma Amazônia; e 2) na necessidade de o setor produtivo zerar seu passivo ambiental recuperando, ou compensando, o que seria mais racional, áreas de preservação permanente e de reserva legal nas terras que já são usadas de forma produtiva. Enquanto a segunda abordagem tem caráter mais doméstico, porque se refere à legislação ambiental brasileira, a primeira é fortemente influenciada pelo ambiente internacional. Isso ocorre não somente porque a questão do desmatamento está umbilicalmente conectada com a emissão de gases do efeito estufa, mas porque o desmatamento tem sido usado externamente como argumento para tentar minar as indiscutíveis vantagens do etanol brasileiro feito de cana-de-açúcar ante seus concorrentes.

Dado que ainda não existem registros de que a expansão da produção de cana-de-açúcar provoque desmatamento, uma vez que a cultura cresce basicamente em áreas já ocupadas por pastos e lavouras, foi criado o conceito do efeito do uso indireto da terra. A necessidade de quantificação desse efeito indireto faz parte das legislações européia e norte-americana para biocombustíveis. A idéia do efeito indireto - e é preciso lembrar que ele não se aplica apenas ao caso do etanol brasileiro - diz que é preciso contabilizar no balanço de carbono a quantidade equivalente emitida pelo desmatamento causado indiretamente pela expansão da matéria-prima de base agrícola utilizada na produção do biocombustível. Para nós, brasileiros, essa discussão soa um pouco surreal. Por enquanto, até que alguma metodologia de cálculo seja desenvolvida e amplamente testada e aceita, ela realmente é.


Não há dúvida que o tema do uso da terra foi jogado nas costas dos setores agrícola e florestal como um passivo. No entanto, políticas que estimulem um equilíbrio aceitável entre produção e preservação ambiental podem alterar os sinais do resultado desta equação. Essas políticas passam pela busca de formas inovadoras de compensação das exigências de reserva legal que não inibam novos investimentos no setor agrícola e florestal. Isso é importante porque um país como o Brasil não se pode dar ao luxo de investir menos em produção de alimentos, etanol e produtos florestais. Passam também pelo estabelecimento de sistemas de zoneamento que garantam credibilidade e confiança, sobretudo fora do Brasil, em que a incorporação de novas terras para agropecuária e florestas plantadas se dará equilibrando as necessidades de produção e de conservação. E, por fim, pela criação de mecanismos que estimulem intensos ganhos de produtividade na pecuária, sobretudo nos pastos que são conversíveis para produção agrícola e silvícola, evitando, assim, que o crescimento futuro do rebanho se traduza em novos desmatamentos.

André Meloni Nassar é diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone). E-mail: amnassar@iconebrasil.org.br

quarta-feira, setembro 17, 2008

Aumentam as exportações brasileiras de leite em pó

No ano passado ocorreu um significativo aumento das exportações de leite em pó conforme podemos observar na notícia abaixo do Valor Econômico de hoje:

Brasil ganha força na disputa pelo mercado global de leite em pó

Até 2012, a capacidade de produção de leite em pó no país deverá crescer cerca de 40% e alcançar 700 mil toneladas por ano, segundo projeção da Serlac, trading responsável pela maior parte das exportações brasileiras do produto.

Atualmente, a capacidade instalada para fabricação de leite em pó é de aproximadamente 500 mil toneladas anuais, e o Brasil exporta o equivalente a 75 mil toneladas, de acordo com o presidente da Serlac, Alfredo de Goeye. Quando todos os novos projetos e ampliações estiverem finalizados, e a produção chegar a 700 mil toneladas, a expectativa é que as vendas externas atinjam quase 250 mil toneladas.

"Praticamente todo o excedente [de produção] vai ser destinado à exportação", afirma de Goeye. Conforme a Serlac, há oito novos projetos para produção de leite em pó no país, incluindo os de empresas estreantes e ampliações, como a que a Itambé faz em Uberlândia, onde dobra a capacidade de produção de sua fábrica. Outro exemplo é a goiana Laticínios Bela Vista que vai triplicar a sua produção de leite em pó, segundo o presidente da Serlac.

O quadro desenhado por de Goeye para a demanda pode parecer otimista considerando o atual momento do mercado, quando a oferta elevada de leite fluido derruba os preços e levanta dúvidas sobre a capacidade de escoar a produção. Mas o fato é que os investimentos miram o longo prazo - cerca de cinco anos - e, nesse horizonte, a perspectiva é de demanda externa crescente por leite em pó na África, América Latina e Ásia.

"A China é um desejo, e haverá agressividade brasileira na América Latina e na África", afirma o executivo. Hoje, a América Latina, com destaque para a Venezuela, e a África já são os principais clientes do Brasil. No cenário que de Goeye antevê, Nova Zelândia e Austrália, outros dois importantes players no mercado de lácteos, atenderiam a demanda do Oriente Médio e da Ásia.

O México, um dos maiores importadores mundiais de lácteos, ainda é uma incógnita para o Brasil, reconhece de Goeye. Apesar de as barreiras sanitárias terem sido superadas e de fábricas terem sido habilitadas a exportar, o leite em pó brasileiro paga uma tarifa de 60% para entrar no mercado mexicano. Já o produto dos EUA e de outros países com os quais o México tem acordo comercial paga tarifa zero.

Maurício Nogueira, analista da Scot Consultoria, concorda que o Brasil vai vender mais leite em pó para países da África no longo prazo. Mas também aposta em vendas para China e Índia. "São países que produzem muito também, mas onde a demanda cresce mais que a capacidade de produção", observa, referindo-se aos dois emergentes.

Números da agência da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), compilados pela Scot, corroboram as perspectivas de demanda crescente por leite em pó no mundo. Segundo dados da agência com projeções até 2017, no ano passado a produção global foi de 4,021 milhões de toneladas para um consumo de 3,810 milhões.

Neste ano, a produção projetada é de 4,069 milhões de toneladas, com demanda um pouco acima disso: 4,071 milhões. Nos próximos nove anos, oferta e consumo de leite em pó seguirão equilibrados, conforme as projeções da FAO, que estima produção de 4,897 milhões de toneladas em 2017, ano em que o consumo deve alcançar 4,899 milhões.

Independentemente da demanda externa, Nogueira avalia que os investimentos para ampliar a capacidade de produção de leite em pó são também importantes porque controlam as oscilações de preços do setor.

Além disso, investir na secagem do leite se tornou crucial por causa do crescimento acelerado da oferta do produto no Brasil. "Se não produzir leite em pó, [o mercado] terá que engolir leite", ironiza o analista.

Estimativas do segmento indicam que a produção nacional de leite pode alcançar 30 bilhões de litros este ano, após um volume de 27,2 bilhões de litros de 2007, segundo o IBGE. Isso se o crescimento de 9,38% verificado no primeiro trimestre deste ano no país, pelo instituto de estatísticas, for extrapolado para todo 2008. O motor desse aumento foram os preços altos - no mercado interno e no exterior no ano passado, segundo analistas.

As cotações internacionais já começam a perder fôlego. Mas é consenso que dificilmente voltarão aos patamares de 2006, quando a tonelada de leite em pó estava na casa dos US 2.000 na Europa. O último acompanhamento do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indica preços entre US$ 3.500 e US$ 3.550. No mesmo período de 2007, a tonelada estava entre US$ 5.500 e US$ 5.700.

Cana-de-açúcar é a segunda fonte de energia do Brasil

Em nota publicada no site da UNICA encontramos a constatação de que a cana é a segunda fonte de energia mais importante no Brasil perdendo apenas do petróleo. Esperamos que no futuro esta posição seja conquistada pelo etanol:


Cana-de-açúcar: a segunda fonte primária de energia do Brasil

O estudo realizado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério das Minas e Energia, confirmou que a cana-de-açúcar é a segunda fonte primária de energia do País. O Balanço Energético Nacional 2008, com base no ano de 2007, mostra que a cana representou 15,9% da Matriz Energética Brasileira, atrás apenas do petróleo, com 37,4%.


Entre as fontes renováveis, a cana-de-açúcar ocupa a liderança, tendo, em segundo lugar, as hidrelétricas, que representam 14,9% do total. O consultor de Bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), Carlos Roberto Silvestrin, afirma que a importância energética da cana-de-açúcar tende a crescer com a expansão da oferta de etanol e de bioeletricidade, cogerada pelas usinas.
“Além do uso do etanol como combustível, a bioeletricidade terá um importante crescimento daqui em diante”, argumentou Silvestrin, dizendo que a cana manterá o segundo lugar na matriz energética, pelo menos, nos próximos 10 anos.

Os dados do Balanço Energético Nacional mostram ainda que a oferta interna de energia no Brasil cresceu 5,6% em 2007, passando de 226,1 milhões de tep (tonelada equivalente de petróleo) em 2006 para 238,8 milhões de tep em 2007. O crescimento foi superior ao da economia no ano passado (5,4%, segundo o IBGE). A oferta de energia renovável teve um crescimento em relação a 2006 de 7,6%, enquanto o incremento na oferta de energia não-renovável foi de quase 4%.

Com isto, a participação das fontes renováveis na Matriz Energética passou a ser de 46%. De acordo com Silvestrin, as fontes renováveis tendem a ultrapassar o patamar de 50% nos próximos anos. “O Plano de Referência para 2030 prevê o crescimento das fontes renováveis, após a entrada regulamentada da energia de biomassa, na qual a cana desempenha importante e estratégico papel, em complementação com as novas hidrelétricas", disse o consultor da UNICA.

sábado, setembro 13, 2008

Meta de biocombustíveis da UE é reduzida

O Brasil, que torce pela transformação do etanol em commodity, pode estar sofrendo um revés muito forte, pois a UE reduziu sua meta de biocombustíveis.

Abaixo a notícia publicada ontem no Valor Econômico:

UE REDUZ META PARA USO DE BIOCOMBUSTÍVEL

Um comitê chave do Parlamento Europeu votou ontem pela redução drástica na meta de uso de biocombustíveis no transporte terrestre até 2020 na União Européia (UE), ameaçando o projeto brasileiro de transformar o etanol numa commodity global.

Os líderes dos 27 países-membros da UE tinham aprovado a meta de 10% de utilização de etanol e biodiesel, no ano passado, para combater as emissões de gases de efeito-estufa.

Ontem, o Comitê Industrial do Parlamento Europeu, que lidera o debate sobre clima e energia, alterou o enfoque sobre energia renovável, reduzindo o espaço para etanol e procurando introduzir eletricidade, ou uso de carro elétrico, por exemplo, como alternativas.

A votação fixou uma meta intermediária de 5% no uso de energia renovável até 2015 no transporte terrestre europeu. No total, 80% viriam de biocombustíveis de primeira geração, como é o caso do etanol brasileiro, e 20% de eletricidade (carro elétrico), hidrogênio renovável ou biocombustíveis de segunda geração.

Em 2020, seria alcançada a meta de 10%, dos quais 40% teriam que vir de eletricidade renovável e biocarburante de segunda geração, cortando significativamente o espaço para o etanol brasileiro e outros combustíveis derivados de produtos vegetais.

Essa votação foi importante, mas não é ainda a cartada final. O projeto que será submetido ao plenário dependerá de um acordo político entre o Parlamento, a Comissão Européia (o braço executivo da UE) e o conselho de representantes dos 27 Estados membros - e os três divergem.

O ponto que causa maior confronto entre o Parlamento e o Conselho Europeu, a instância mais poderosa do bloco, é sobre a redução da meta de uso de biocombustível de 10% para 6%. Alguns governos consideram que os deputados propõem algo irrealista, por ser pouco provável dispor de carro elétrico em grande escala em 2020, e biocombustível de segunda geração em quantidade suficiente. "Carro com hidrogênio, então, esquece", diz um analista em Bruxelas.

"As instituições européias têm dúvidas sobre biocarburante e por isso têm a proposta de revisão na meta em 2014 para ter melhor conhecimento científico", acrescenta ele.

A decisão de ontem do Comitê Industrial reflete a que ponto chegou a pressão da opinião pública européia, que transformou o etanol e o biodiesel em vilões, acusados de terem aumentado os custos dos alimentos, de gerarem pobreza e causarem desmatamento das florestas.

As Organizações Não- Governamentais (ONGs) a princípio ficaram a favor dos biocombustíveis, mas mudaram radicalmente sua posição com a crise alimentar. Adrian Bebb, da Amigos da Terra, disse em Bruxelas que o voto "reconhece os sérios problemas com o uso em grande escala de biocombustível. Usar produto agrícola para alimentar carro é uma falsa solução para combater mudança climática e poderia tornar irreversível a perda de espécies naturais e aumentar a miséria de milhões de pessoas".

Em meio a pressões inclusive para a União Européia abandonar a meta, o Comitê Industrial manteve, em todo caso, o compromisso político europeu pela meta de uso de etanol, num contexto em que está complicado ser a favor de biocombustíveis.

"Todo mundo gosta de energia renovável, mas biocombustível virou vilão, e os deputados [europeus] terão eleição no ano que vem", observa uma analista.

A votação não foi boa para o Brasil, porque se for confirmada compromete a criação de um mercado internacional para o etanol produzido no país.

Tampouco está definido o debate sobre uso de etanol produzido em terra degradada, com conceitos muito estritos provocando fortes divergências entre as instituições européias.

O setor privado brasileiro está tentando convencer os europeus a usar a definição de terra degradada da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). A França quer aprovar um projeto sobre a meta até dezembro, quando acaba sua presidência da EU (Valor, 12/09/08)

sexta-feira, setembro 12, 2008

Internacionalização da Friboi traz novos problemas

Quando uma empresa passa pelo processo de internacionalização, algo que a JBS Friboi está fazendo, com certeza tem que enfrentar problemas muito diferentes daqueles de seu país de origem.

A notícia abaixo do Valor Econômico de hoje mostra como aspectos culturais podem trazer sérios problemas para a produção:

Questão religiosa leva JBS a demitir 100 pessoas nos EUA
Ricardo Balthazar

O grupo brasileiro JBS demitiu nesta semana 100 trabalhadores muçulmanos que reivindicavam jornadas de trabalho mais flexíveis para conciliar suas obrigações religiosas com o serviço, em uma tentativa de liquidar uma disputa que durante vários dias agitou a principal planta de processamento de carne bovina do grupo nos Estados Unidos.

O problema surgiu no começo deste mês, quando os muçulmanos do mundo inteiro celebram o Ramadã. Neste período do ano, os fiéis devem ficar em jejum entre o nascer e o pôr-do-sol e só podem comer depois de uma oração que precisa ser feita durante o crepúsculo. Os horários estabelecidos pela JBS para os trabalhadores da fábrica do grupo em Greeley, no Estado do Colorado, tornam impossível o cumprimento dessas obrigações.

A planta opera com dois turnos de trabalho. O pessoal escalado para o segundo turno entra no começo da tarde e só volta para casa à noite, depois de mais de oito horas lá dentro. O contrato coletivo assinado pela JBS com o sindicato que representa os trabalhadores prevê três pausas para descanso e alimentação nesse período, duas de quinze minutos e uma de meia hora.

Depois de várias reuniões com o sindicato e representantes dos trabalhadores muçulmanos, a empresa concordou em antecipar a pausa de meia hora para alimentação durante o Ramadã, das 21h15 para as 20 horas. Mas não adiantou, porque nesta época do ano o sol se põe antes das 19h30 em Greeley e os muçulmanos precisam fazer suas orações antes disso se quiserem cumprir os rituais do Ramadã.

Na sexta-feira da semana passada, 220 trabalhadores abandonaram a linha de produção e saíram da fábrica em protesto contra a decisão da empresa. A JBS considerou a iniciativa uma violação do acordo coletivo e suspendeu os trabalhadores. Cerca de 120 voltaram ao trabalho na terça-feira. Os outros foram demitidos no dia seguinte.

Em comunicado distribuído na quarta-feira, a empresa disse que "trabalha junto com todos os empregados e seus representantes sindicais para acomodar práticas religiosas de forma razoável, segura e justa para todos os envolvidos". A JBS tem cerca de 3,4 mil funcionários em Greeley. Cada turno de trabalho na planta emprega 1,5 mil pessoas.

O conflito com os muçulmanos é uma amostra das dificuldades que o grupo brasileiro tem encontrado para recrutar e reter a mão-de-obra necessária para processar as milhares de cabeças de gado que são abatidas diariamente em suas fábricas. A JBS chegou aos Estados Unidos há pouco mais de um ano, quando adquiriu o controle da Swift, terceira empresa do setor de carne bovina no país.

Mais de dois terços dos empregados da JBS em Greeley são imigrantes de origem hispânica. Em 2006, antes da chegada do grupo brasileiro, a empresa perdeu 1,3 mil trabalhadores que viviam com documentos ilegais nos EUA e foram descobertos pelas autoridades. Nos últimos tempos a empresa contratou um grande número de trabalhadores africanos, refugiados de países pobres conflagrados por guerras civis e conflitos étnicos.

Cerca de 15% dos funcionários da empresa em Greeley são africanos, a maioria de religião muçulmana. Eles saíram de lugares como a Somália, a Etiópia e o Congo para viver nos Estados Unidos graças a programas da Organização das Nações Unidas (ONU) para refugiados políticos.
O trabalho em Greeley é desgastante, mas um operário recém-contratado ganha US$ 2,5 mil por mês, além do plano de saúde e de outros benefícios raríssimos na África.

A empresa diz que a agitação dos últimos dias não afetou sua produção. Mas ela certamente gerou muita publicidade negativa. Mais de uma centena de trabalhadores da JBS e líderes muçulmanos se reuniram numa praça no centro de Greeley para protestar contra a empresa na terça-feira. Eles deram entrevistas à imprensa local para se queixar de maus-tratos e discriminação e reclamar dos supervisores da fábrica, a maioria trabalhadores de origem hispânica.

quarta-feira, setembro 10, 2008

O que acontecerá com as commodities?

A notícia abaixo do Valor de hoje mostra como a crise imobiliária americana pode afetar o mercado de commodities.

Reposicionamento de capitais tira suporte de commodities agrícolas
Fernando Lopes


O reposicionamento de investimentos globais decorrente das medidas anunciadas no fim de semana pelo governo americano para socorrer as principais agências hipotecárias do país (Fannie Mae e Freddie Mac) aumentou o nervosismo nos mercados agrícolas.

Apesar de os chamados "fundamentos" das principais commodities da área ainda apontarem baixos estoques, riscos climáticos à produção e demanda em elevação no longo prazo, muitos analistas admitem a possibilidade de migração de capitais e novas quedas nos próximos dias, ainda que para um patamar bastante superior às médias históricas. Mas mesmo fortes altas de preços não estão descartadas.

O fato é que, desde que bancos centrais mundo afora começaram a elevar as taxas básicas de juros em resposta às turbulências internacionais, as commodities agrícolas perderam sustentação. Os especialistas mantêm-se cautelosos em relação ao que pode acontecer no curto prazo, mas, ao que tudo indica, as máximas de 2008 já ficaram mesmo para trás.

Na bolsa de Chicago, principal referência mundial para os preços dos grãos, a terça-feira foi tensa e de muitas oscilações. Soja, milho e trigo permaneceram em baixa durante a maior parte da sessão, mas ao fim dela apenas milho e trigo fecharam em queda. A soja, depois de descer ao menor patamar em cinco meses, recuperou-se e fechou em alta.

Impulsionados por notícias climáticas desfavoráveis às lavouras dos EUA, os contratos da soja com vencimento em novembro (que hoje ocupam a segunda posição de entrega na bolsa, normalmente a de maior liquidez) subiram 9 centavos de dólar (0,76%) e encerraram a sessão negociados a US$ 12,0100 o bushel. Com os ganhos, mostra o Valor Data, caiu para 9,29% a queda acumulada dos preços em setembro e para 1,09% a perda em 2008; nos últimos doze meses, a valorização soma 32,67%.

Se o clima no Meio-Oeste americano ajudou a soja, o mesmo não aconteceu com o milho, porque as notícias nessa frente foram favoráveis às plantações. E, também pressionados pela valorização do dólar, os papéis para entrega em dezembro (segunda posição) recuaram 4,50 centavos de dólar, para US$ 5,4450 por bushel - menor patamar em quase um mês. O dólar também tirou suporte do trigo. Em Chicago, os contratos de dezembro (segunda posição) do cereal caíram 13,25 cents, para US$ 7,3050 por bushel. Durante o dia, os preços chegaram a cair ao menor nível em um ano, antes de uma recuperação parcial no fim do dia.

"Ainda que, nesse momento, o dinheiro esteja fugindo e os investidores estejam observando as ações do governo americano, é improvável que as commodities agrícolas percam toda a sua atratividade", afirmou, de Nova York, Vinícius Ito, da Newedge. Ainda assim, não custa notar que o petróleo, principal referência para os fundos de índices que também investem em agrícolas, entrou em parafuso nas últimas semanas.

Ana Laura Menegatti, analista do braço agrícola da MB Associados, acredita que os baixos estoques limitam o espaço para fortes quedas das commodities agrícolas, mas reconhece que o momento é delicado e que em países que estão prestes a plantar a safra 2008/09, como o Brasil, os produtores têm de prestar muito atenção a seus custos, em geral mais elevados que em 2007/08.

"Pelo menos até agora os fundamentos indicam que o plantio não será muito afetado no Brasil", afirma Antonio Sartori, da corretora gaúcha Brasoja. Ele lembra que "o produtor é um eterno otimista" e vai plantar, e afirma que o risco de problemas climáticos na América do Sul ao longo do desenvolvimento da safra 2008/09 é grande. Na Argentina, por exemplo, uma seca prolongada acaba de reduzir a safra de trigo e o rebanho bovino.