segunda-feira, setembro 08, 2008

Açúcar - De um cenário de excedente para um cenário de déficit

As previsões sobre o mercado de açúcar parecem estar meio confusas como podemos ver na notícia abaixo da Reuters de 05 de setembro encontrada no site Brasil Agro.

De um cenário de excedente de 3,3 milhões de toneladas passamos para um déficit de 3,8 milhões de toneladas. Analisando estes números somente podemos sentar e verificar qual será o real resultado:

KINGSMAN ESTIMA DÉFICIT GLOBAL DE AÇÚCAR DE 3,8 MI T

A corretora e consultoria Kingsman revisou nesta sexta-feira a sua previsão para o balanço global de açúcar na temporada 2008/09, estimando um déficit de 3,8 milhões de t, em relação à previsão anterior de 3,3 milhões de t excedentes em 2008/09.

O escritório da Kingsman, em Lausanne, apontou como motivo da revisão a menor produção dos dois maiores produtores mundiais, Brasil e Índia, e a previsão de aumento do consumo na China e na Índia, o maior consumidor no mundo.

"O tempo úmido, o aumento dos custos de produção, a valorização do real e os preços mais altos do etanol puxaram os números de produção do açúcar para baixo (no Brasil)", afirmou a Kingsman.

"As perspectivas para a temporada 2008/09 na Índia também diminuíram com a tardia monção de chuvas em Maharashtra, que reduziu a produção de cana...", acrescentou.

Kingsman também elevou as previsões de consumo.

"O lado do consumo na equação também rendeu algumas surpresas, com o acréscimo de 1,4 milhões de t ao uso global desde a previsão de maio", declarou a Kingsman. "A China e a Índia estão no topo da lista no aumento do consumo.

"Na semana passada a Organização Internacional de Açúcar, localizada em Londres, previu um déficit mundial no mercado de 3,9 milhões de t em 2008/09, comparado com o excedente de 7,25 milhões em 2007/08.

Calor pode matar ervas daninhas segundo estudo da UNICAMP

A notícia abaixo é sobre 0trabalho de uma tese de doutorado da Faculdade de Engenharia Agrícola, onde com orgulho me formei, que mostra a possibilidade de matar ervas daninhas com o calor. Se isso se concretizar, seria algo muito interessante para a natureza pois diminuiremos a quantidade de herbicidas. Abaixo a notícia na íntegra que pode ser encontrada também aqui:

Exposição ao sol provoca morte de plantas daninhas
Raquel do Carmo Santos

Uma técnica alternativa ao uso de herbicidas contra plantas daninhas foi testada pelo agrônomo Marcos Roberto da Silva em tese de doutorado defendida na Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri). Trata-se da técnica de flamejamento, que consiste na exposição da planta ao calor por um curto espaço de tempo, promovendo a morte da planta daninha. O método, além de possuir baixo impacto sobre os recursos naturais, encontra aplicação tanto na agricultura orgânica como em culturas que não façam uso de controle químico ou biológico.

Um dos potenciais usuários da técnica pode ser prefeitura interessada em combater as plantas daninhas nas áreas urbanas. Como em muitos lugares o uso de herbicidas não é permitido, o flamejamento seria uma boa alternativa, principalmente em cidades praianas para se evitar uma possível contaminação de mananciais. Durante a pesquisa, Silva realizou aplicações também no combate a doenças, pragas e, ainda, no processo de dessecação da rama da batata – prática comum para se obter uma maturação homogênea do produto.

Marcos Silva foi orientado pelo professor Luiz Antonio Daniel em seu estudo, e contou com a parceria da empresa Antoniosi Tecnologia Agroindustrial, especializada em produção de máquinas agrícolas, instalada no município de Matão. O projeto teve o financiamento da Fapesp, por meio do programa de Pesquisa Inovativa na Pequena e Micro Empresa (PIPE). O agrônomo explica que a empresa produziu protótipos das máquinas flamejadoras e precisava de respostas sobre o comportamento da técnica em situações diversas.

O objetivo ao longo da pesquisa foi, justamente, entender os mecanismos para viabilizar a fabricação das máquinas em escala industrial. “No Brasil, pouquíssimos produtores aplicam essa técnica com eficiência, mas invariavelmente de forma artesanal e sem nenhum aparato de segurança. Por isso, a idéia de se entender o mecanismo para o credenciamento do produto”, esclarece.

As máquinas flamejadoras possuem basicamente um tanque de combustível GLP, componentes de controle e de segurança e um bico difusor (lança-chamas). Elas podem ser usadas em separado, em equipamentos manuais ou acopladas a um trator. Segundo Silva, não é necessária uma exposição demorada da chama para que a aplicação seja eficiente. “Uma simples sapecada leva à evaporação da água nas células e a conseqüente morte da planta sem produzir nenhum tipo de resíduo”, explica.

No Centro de Engenharia e Automação de Jundiaí, vinculado ao Instituto Agronômico de Campinas, onde foram realizados os testes, a estrutura para ensaios com semeadoras foi adaptada para o desenvolvimento dos ensaios com dois tipos de flamejadores, um de chama direta e outro de chama indireta (radiação infravermelha) e os tratamentos foram aplicados em quatro espécies de plantas daninhas, consideradas de importância econômica. Essas plantas se desenvolvem fora de lugar e, na lavoura elas geram preocupação, pois competem com as culturas por nutrientes, água e luz.

domingo, setembro 07, 2008

Multis do agronegócio remuneram melhor seus executivos

A reportagem de capa da Edição 926 da Exame, atualmente nas bancas, é sobre a remuneração anual dos executivos no Brasil.

Dentro da série de reportagens temos uma com o título "A Reação das Multinacionais" onde comenta-se o esforço das multinacionais em manter seus executivos através do aumento da remuneração.

Um estudo conduzido pelo Hay Group em 129 empresas mostrou que as empresas ligadas ao agronegócio (companhias agropecuárias, açúcar e álcool e insumos em geral) apresentaram o maior aumento na remuneração variável de executivos entre 2006 e 2007 devido principalmente ao fato do agronegócio estar crescendo e passando por um momento de consolidação e profissionalização, tornando-o mais vísivel aos investidores

A figura abaixo mostra a diferença da remuneração das empresas do agronegócio quando comparadas aos demais setores.

sábado, setembro 06, 2008

Small caps do Agronegócio - algumas sugestões de analistas

As small caps são ações de pequenas empresas que eventualmente podem passar despercebidas pela maioria dos investidores, entretanto, os analistas sempre estão de olho nelas e o artigo abaixo retirado do Portal Exame em 21 de agosto:

20 ações para o longo prazo

Os melhores papéis de small e mid caps na opinião de 30 especialistas financeiros consultados por EXAME

Por Bruno Toranzo e José Carlos Videira

Um dos enganos mais comuns entre os novos investidores do mercado de capitais é achar que as expressões small e mid caps se referem aos papéis de pequenas e médias empresas. Com faturamento de 2 bilhões de reais, a fabricante de carrocerias Marcopolo é uma das maiores companhias brasileiras. Mas, pelos parâmetros da bolsa, a Marcopolo é uma small cap — tem valor de mercado inferior a 5 bilhões de reais e volume diário de negócios na bolsa entre 200 000 e 4 milhões de reais. Na Bovespa, a CPFL, uma gigante do setor de energia, é apenas uma mid cap, por estar entre as companhias que têm valor de mercado entre 5 bilhões e 20 bilhões de reais e ações que negociam, em média, de 5 milhões a 25 milhões de reais por dia. Essas duas categorias de ações sofreram muito nos últimos meses com a saída de investidores estrangeiros da Bovespa, acuados pela crise internacional. Daqui para a frente, no entanto, a tendência é que vários desses papéis se recuperem. “Nem tudo o que caiu vai voltar a subir, mas esse é o momento em que empresas com histórias interessantes começam a se destacar”, diz Sérgio Goldman, diretor no Brasil da empresa americana de investimentos Bulltick. “Ainda há muitas small e mid caps baratas com perspectivas de valorização no longo prazo.”


Para apontar quais são elas, EXAME consultou 30 profissionais — entre analistas, gestores e consultores — dos principais bancos, corretoras, gestoras de recursos e assessorias de investimento do país. Só foram selecionadas as ações que receberam, ao menos, dois votos dos especialistas. Depois disso, essas indicações foram comparadas com um levantamento feito pela consultoria Economática, que analisou indicadores financeiros das companhias de capital aberto para apontar as mais promissoras. O resultado dessa extensa triagem são as 20 ações que constam desta reportagem. Isso quer dizer que o risco de algo dar errado é pequeno? Não. Num ambiente volátil como o atual, a chance de altos e baixos é grande — e algumas das ações recomendadas têm risco elevado. Para os especialistas consultados, porém, quem estiver disposto a agüentar solavancos e a deixar seu dinheiro aplicado por mais de um ano pode obter retornos interessantes com esses papéis. Além de terem potencial de alta para os próximos 12 meses, as ações listadas a seguir devem continuar se valorizando no longo prazo, dizem os especialistas. Espera-se que essas empresas sejam beneficiadas pelo crescimento econômico — que deve arrefecer, mas dificilmente ficará abaixo de 3% ao ano no curto prazo — e pelo grau de investimento, que costuma atrair recursos estrangeiros para ações de companhias de menor porte na bolsa. “O investidor que souber escolher empresas que ganham com esse cenário vai lucrar mais que a média da bolsa”, diz Alexandre Póvoa, diretor da gestora de recursos Modal.


China - nosso maior importador do agronegócio

A notícia abaixo do Estado de São Paulo mostra a tomada da primeira posição de importador do agronegócio brasileiro pela China:

CHINA VIRA O MAIOR CLIENTE DE PRODUTOS AGRÍCOLAS BRASILEIROS

As exportações de produtos agropecuários para o país praticamente dobraram em relação ao ano passado.

A China se consolida como principal destino dos produtos agropecuários do Brasil. De janeiro a agosto deste ano, as vendas para o mercado chinês cresceram 97,3%. Isoladamente, a China já concentra 13,1% das exportações brasileiras do agronegócio. Em segundo e terceiro lugares, aparecem os Países Baixos, com participação 9,4%, e os Estados Unidos, com 8,5%.

Considerando blocos econômicos, a União Européia continua como principal destino, comprando 33,2% das exportações brasileiras do agronegócio. Em seguida, vêm a Ásia, com 24,9%, o Nafta (9,7%), e a Europa Oriental (7,9%).

As informações foram distribuídas ontem pelo Ministério da Agricultura, em nota sobre o desempenho da balança comercial do agronegócio. Segundo a nota, a demanda mundial por alimentos continua favorecendo as exportações do setor.

De janeiro a agosto, as vendas externas de produtos agrícolas renderam US$ 48,5 bilhões, um crescimento de 28% em relação ao faturamento de US$ 37,897 bilhões no mesmo período de 2007. O setor teve um superávit de US$ 40,6 bilhões, 25% maior do que os US$ 32,398 bilhões de janeiro a agosto de 2007.

Os cinco principais setores que colaboraram para o bom resultado das exportações foram o complexo soja (+71,4%), carnes (+36,9%), produtos florestais (+11,2%), complexo sucroalcooleiro, (+5,4%) e café (+16%).

A receita cambial obtida com os embarques de soja em grão, farelo e óleo somou US$ 13,706 bilhões, contra US$ 7,997 bilhões em igual período de 2007. As exportações de carne vão superar em breve a marca de US$ 10 bilhões. Até agosto as vendas renderam US$ 9,845 bilhões.

Em relação ao destino das exportações, além da China, destaca-se o crescimento dos valores para os seguintes destinos: Aladi (66,5%, excluindo os países do Mercosul), Ásia (60,8%), Europa Oriental (44,9%), Mercosul (24,5%) e União Européia (22,7%).

Em agosto, as exportações do agronegócio somaram US$ 6,8 bilhões, aumento de 15,7% em relação a agosto de 2007. O superávit alcançou US$ 5,7 bilhões. Em 12 meses, as vendas externas atingiram a marca histórica de US$ 69 bilhões.

As exportações do complexo soja em agosto resultaram numa receita de US$ 1,8 bilhão, 44% a mais do que no mesmo período do ano passado, resultado puxado pela alta dos preços internacionais.

De acordo com o ministério, o preço da soja exportada foi 81% maior que o de agosto de 2007, e os de farelo de soja e óleo de soja, 63% e 61,3% superiores, respectivamente.

terça-feira, setembro 02, 2008

Crescimento explosivo do Marfrig

A revista Época Negócios do mês de agosto teve como reportagem o crescimento vertiginoso do frigoríifico Marfrig. Abaixo segue a reportagem na íntegra que também pode ser acessada clicando aqui:

Este jovem construiu uma múlti em dois anos

Eis uma história do novo brasil: a incrível saga de marcos molina dos santos, controlador do grupo marfrig. filho de açougueiro, abriu sua primeira empresa aos 16 anos e hoje, aos 38, possui 60 plantas em nove países.

por Alexa Salomão

“Segunda-feira eu tive uma grande e agradável surpresa. Fiquei sabendo que vocês compraram a empresa em que trabalho, a Moy Park, de Wisbech. Para mim é muito gratificante saber que uma empresa brasileira está se sobressaindo no cenário internacional. E agora, na fábrica, todos os meus colegas de trabalho, inclusive o manager, estão brincando comigo, me chamando de 'boss', claro, porque sou brasileiro. É muito bom saber que agora trabalho em uma empresa brasileira aqui na Inglaterra. É como se um pedacinho do Brasil estivesse aqui comigo. Isso me deixa muito orgulhoso."

O empresário paulista Marcos Molina dos Santos sorri quando se refere ao e-mail que recebeu de Osório Augusto Baggio, no final de junho, dias depois de conduzir a maior aquisição feita pelo seu grupo, o Marfrig, do setor de carnes.

Foram 15 plantas do grupo americano OSI, no Brasil e na Europa. Em meteóricos dois anos, o Marfrig abocanhou 25 empresas, sendo mais da metade no exterior. A compra do OSI foi a mais ousada. Com ela, de uma única tacada, praticamente triplicará seu faturamento para quase R$ 10 bilhões neste ano ano e passará a operar 60 plantas em nove países. O grupo, que já tinha unidades na Argentina, no Uruguai, no Chile e nos Estados Unidos, estende seus domínios para Inglaterra, Irlanda do Norte, França e Holanda, passando a operar diretamente em oito países, além do Brasil. Isso significa que quando a operação de compra for concluída, Molina será o controlador da mais internacionalizada empresa do agronegócio brasileiro, além da quarta maior processadora de carne bovina e uma das dez maiores de frango. Seu valor de mercado é de R$ 4 bilhões.

Entre os novos negócios está a fábrica inglesa Moy Park, do OSI, onde Baggio, emigrante brasileiro que se fixou na Inglaterra em 2005, está empregado. Cartas como a que ele enviou são vitamina para a sede de crescimento de Molina, um homenzarrão de poucas palavras que só interrompe o silêncio para soltar uma de suas marcas: uma gargalhada impagável (pergunte a ele, por exemplo, quantas horas de lazer lhe sobram na semana). Molina, de 38 anos, é o rosto mais jovem que desponta na onda de globalização das empresas brasileiras do setor de agronegócio. Até o momento, os holofotes permaneciam sobre a JBS, o antigo Friboi, que comprou a marca Swift e disputa a posição de maior empresa de bovinos do mundo com a americana Tyson Foods. A JBS, da família Batista, ainda é a maior em faturamento, mas o Marfrig de Molina alcança um número maior de países.

Neto e filho de açougueiros, o destino de Molina parecia traçado já na infância. Aos 12 anos, começou a trabalhar atrás do balcão do açougue do pai, em Mogi-Guaçu, no interior de São Paulo. Era um faz-tudo: ora atendia os fregueses e cortava a carne, ora assumia o caixa. Mas contrariando a tradição interiorana, Molina tinha pressa. Com apenas 16 anos, pediu ao pai que o emancipasse. Sua idéia era montar um negócio de distribuição de miúdos. Antes de começar já tinha os clientes - os maiores compradores do açougue do pai, com quem acertou as entregas antes de se aventurar sozinho. A pequena empresa começou a atuar na cidade e depois na região. Chegou a Campinas e depois alcançou a capital paulista. Aos 28 anos, Molina já se tornara um fornecedor de cortes nobres e importados para os melhores restaurantes e churrascarias da metrópole. O jovem Molina sempre se preocupou em ter o que é mais difícil nesse negócio: uma boa base de clientes. Em seguida, para atendê-los melhor, tentou vôos mais ousados. Foi além do negócio de distribuição e começou a comprar frigoríficos. O primeiro, em 2000, foi o Bataguassu, em Mato Grosso do Sul. Nunca mais parou.

O Marfrig ilustra com precisão um movimento de ascensão internacional que não é isolado na história recente do mundo corporativo. Faz parte de um novo fenômeno de proporções globais. Um número cada vez maior de empresas fundadas em países emergentes, como China, Índia e Coréia, está avançando para competir em países desenvolvidos. No Brasil esse movimento caminha de forma mais lenta (veja a reportagem Por Que Estamos atrás Deles), mas o exemplo do Marfrig aponta para uma nova geração de empresas brasileiras que começa a desbravar o mercado externo para crescer.

DESFILE DE MARCAS
O grupo Marfrig tem cerca de 30 marcas. Eis as mais importantes:

Marcos Molina é um empreendedor intuitivo. Não fez faculdade, não lê livros de negócios e não recorre a consultorias de gestão. É viciado em trabalho. Os clientes têm o número de seu celular e podem ligar até nas madrugadas. "Marcos consegue trabalhar 21 horas por dia", diz Márcia dos Santos, sócia integrante do conselho de administração e mulher de Molina. O casal se conheceu quando ela tinha 16 e ele 18 anos. Casaram-se cinco anos depois. Márcia sempre foi o braço direito do marido. Quando os primeiros frigoríficos foram comprados, na região Centro-Oeste do país, no início da década, era ela quem o acompanhava nas visitas às novas unidades. Todas as sextas-feiras, o casal embarcava com os dois filhos no jatinho da empresa e seguia para os frigoríficos. Analisavam a contabilidade, as linhas de produção e os relatórios de entregas.

"Muitas vezes trabalhamos aos sábados até a madrugada e voltamos para São Paulo ao meio-dia do domingo", diz Márcia.Ainda hoje, já com a gestão da empresa profissionalizada, Molina aproveita os feriados e os fins de semana para viagens de negócio em seu jato para colocar o trabalho em dia.

Simplicidade

Também é despojado. Trabalha em mangas de camisa e só usa terno quando o protocolo exige. No dia-a-dia dos negócios, é despachado. Fala e ri com sonoridade. Mas é de natureza tímida. Não gosta de comentar suas conquistas. "Não fiz nada disso sozinho. Tudo foi desenvolvido junto com o cliente, o fornecedor e toda a equipe do Marfrig. E com a minha mulher, que sempre esteve ao meu lado", afirma. No mercado, Molina é descrito como um homem que sabe ouvir para, em seguida, agir. "Em um jantar de negócios, Marcos passa a maior parte do tempo calado. Só fala ao final, por uns cinco minutos, diz o que vai fazer - e faz. Sempre do jeito mais correto e transparente", diz Arri Coser, sócio da rede de churrascarias Fogo de Chão e responsável pela internacionalização do rodízio gaúcho. Coser tem seis churrascarias no Brasil e 11 nos Estados Unidos. Quando começou a trabalhar com Molina, em 1995, comprava do Marfrig apenas 10% da carne do Fogo de Chão. Hoje essa parcela oscila entre 60% e 70% nas unidades brasileiras.

Uma das características que impressionam pessoas próximas é a simplicidade de Molina. Um desses interlocutores é Antonio Maciel Neto, presidente da Suzano Papel e Celulose e ex-presidente da Ford do Brasil. Maciel é conselheiro independente do Marfrig, ao lado de Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central, e de Marcelo Maia de Azevedo Corrêa, presidente do grupo Neoenergia. Maciel relutou em aceitar o convite da Fesa, a agência de recrutamento de executivos escolhida por Molina para ajudá-lo a profissionalizar a gestão do grupo Marfrig. "Eu não tinha tempo para mais nada, mas insistiram porque queriam me apresentar ao Marcos", diz Maciel. "Acabei aceitando e fiquei impressionado com a inteligência e o carisma dele." Outro traço que chama a atenção em Molina é sua visão estratégica certeira.

"As coisas nascem muito rapidamente na cabeça dele", diz Márcia. "Ele pensa sempre antes, na frente." Quando o Marfrig ainda era focado em carnes bovinas, Molina comprou o Patagonia, frigorífico especializado em cordeiros na Terra do Fogo, extremo sul do Chile. Orgulhoso, levou Márcia para conhecer o local. O casal chegou à região num dia gelado, abaixo de zero. Márcia espantou-se com a paisagem desértica. "O que tem nesse fim de mundo?", perguntou. "Duzentos e cinquenta mil cordeiros por ano", disse Molina. E cordeiros especiais, considerados orgânicos, porque pastam. Têm mercado garantido, já que a demanda por esse tipo de carne só cresce. Além disso, o Patagonia tem uma planta de 9 mil metros quadrados, clientes cativos na Europa, no Japão e na Rússia e toda a estrutura para o abate Kosher, o ritual exigido por judeus ortodoxos.

No mês seguinte, Molina surpreendeu de novo seu pessoal ao fechar a compra da Quickfood. O negócio não se encaixava na lógica das aquisições de brasileiros no exterior. Normalmente, o que interessa são frigoríficos com bons produtos para exportação. A Quickfood é uma empresa de alimentos que atende ao mercado interno e seu melhor ativo é a linha Paty, sinônimo de hambúrguer para os argentinos. Molina já conhecia o peculiar nacionalismo local, que em vários períodos da história interferiu nas regras de exportação e de importação, principalmente de produtos brasileiros. Em março deste ano, por exemplo, quando ruralistas fizeram barricadas contra a exportação de alimentos e o governo proibiu os embarques de carne, a Quickfood tornou-se um dos melhores negócios do Marfrig na Argentina.

Histórias como essa e a trajetória do Marfrig mostram que Molina aprendeu na prática a fazer o dever de casa no mundo dos negócios. Quando não passava de um pequeno comerciante de carnes, foi obrigado a negociar em um setor precário, com problemas de logística e de abastecimento. Em 1986, quando abriu a empresa, o Brasil vivia sob a pressão do Plano Cruzado e a escalada da inflação. O governo chegou a confiscar boi no pasto para manter o fornecimento. Para garantir cada naco de carne que vendia aos clientes, era preciso cultivar contatos e isso Molina sabia fazer. No início, cativou a clientela em Mogi-Guaçu. Depois foi para as cidades vizinhas, como Campinas e Águas de Lindóia. Em 1994, começou a fornecer para o Porcão, do Rio de Janeiro, uma das mais badaladas churrascarias do país. Foi quando percebeu que os melhores restaurantes tinham uma enorme carência de boas carnes. A partir de então, passou a sondar a capital paulista, onde o circuito gastronômico era bem maior. Em 1998, com vários clientes garantidos, transferiu a sede da empresa para Santo André, na região metropolitana de São Paulo.

Molina foi o primeiro a se preocupar em aproximar todos os elos de uma cadeia complicada. "Pecuarista, fornecedor e cliente viviam em guerra", afirma. "Na safra, sobrava carne e se comprava barato. Na entressafra, o preço subia e era uma luta garantir o produto. Tínhamos de começar a trabalhar juntos", diz Molina, que levou donos de restaurantes paulistanos para conhecer as melhores fazendas de gado da Argentina e do Uruguai. Também foi cicerone de produtores dos países vizinhos em jantares na capital paulista. Sentava-se à mesa com os dois lados, para intermediar contratos de fornecimento de longo prazo, sempre deixando claro qual seria a margem de lucro do Marfrig em cada negociação. "Os concorrentes diziam para não fazer isso", diz Molina. "Que depois os clientes iriam negociar sozinhos, mas não foi o que aconteceu." Com a estratégia, Molina garantia mercado para os produtores, carne para os clientes e espaço ao Marfrig. "A grande marca de Marcos foi propor parcerias quando ninguém se preocupava com isso. Ele trabalha em conjunto, é arrojado. Pensa e age muito rapidamente", diz o gaúcho Ari Nedeff, sócio majoritário de redes de rodízio como Novilho de Prata, Montana Grill, Pampeana, Galeteria Gaúcha e Boi Brasil. Nedeff compra do Mafrig toda a carne bovina e de porco que serve nas 14 churrascarias de sua rede.

Molina também foi o primeiro a oferecer produtos sob medida. Preocupou-se em entender que tipo de carne cada dono de restaurante queria no cardápio e negociou com os fornecedores para que produzissem cortes sob medida, que ele embalava a vácuo para garantir a qualidade. "Aprendi muito cedo que a carne não deve ser apenas bonita", diz Molina. "Deve ter qualidade, ser macia." Os cortes de Molina permitiram aos donos de restaurantes conceituados criar pratos antes impensáveis no Brasil por falta de matéria-prima. "A primeira vez que o vi, era praticamente uma criança. Tinha pouco mais de 20 anos e carregava uma caixa com peças de cordeiro em um dos braços e de bovinos no outro", diz o americano Peter Rodenbeck, sócio no Brasil dos restaurantes Outback e da rede de cafeterias Starbucks, e também o responsável pela chegada do McDonald's ao país, na década de 80. "Não nos entendemos muito bem no primeiro encontro. Ele era um jovem com forte sotaque do interior e eu um gringo que mal falava português. Mas ele deixou os cordeiros." As peças tinham alta qualidade e foram usadas no teste de novas receitas. Dois meses depois, o cordeiro de Molina foi incluído no cardápio da rede Outback. "É um cordeiro famoso até hoje", diz Rodenbeck.

O MAPA DA EXPANSÃO

Em oito anos, o Marfrig passou de distribuidor regional de cortes bovinos a uma das maiores indústrias de carnes do mundo, com mais de 60 unidades em nove países.

Carnes de todos os tipos

A obsessão de Molina em atender bem os clientes foi decisiva para a internacionalização do Marfrig. Dois momentos ilustram isso. O primeiro foi a desvalorização cambial de 1999. Naquela época, o Marfrig firmava-se como distribuidor de carnes importadas e teve as margens achatadas com a alta do dólar. Molina nem pensou em romper os compromissos assumidos. Mas deu-se conta da fragilidade em que a empresa se encontrava, por não ser uma exportadora. Mas para entrar nesse ramo precisava de um frigorífico. "Eu nunca quis ter frigorífico, porque era uma atividade polêmica e gosto do negócio de distribuição. Mas de repente o importador ficou malvisto. Virou atravessador", afirma Molina. "Exportando, poderia melhorar as margens e proteger a empresa da oscilação de preços", diz. Em 2000, Molina comprou seu primeiro frigorífico e, em 2001, começou a exportar.

Outro momento decisivo para transformar o Marfrig na empresa global que é hoje foi o surto de aftosa de 2005, que praticamente fechou as fronteiras do Brasil para a exportação de carne bovina in natura. Àquela altura, o Marfrig já exportava para 40 países. Molina percebeu que precisava proteger a empresa de imprevistos sanitários se quisesse crescer no mercado externo. "O cliente lá na Europa não queria comprar carne do Brasil e nós íamos perder mercado", diz Molina. Com unidades em outros países, o Marfrig poderia oferecer soluções completas. "Quem fizesse negócio com a gente compraria não só do Brasil, mas de outros países também." Mais uma vez Molina agiu rapidamente. Em 2006, comprou o primeiro frigorífico fora do Brasil, o Tacuarembó, então terceiro exportador do Uruguai. Hoje o grupo Marfrig abate 21,1 mil cabeças de gado por dia, em 18 unidades no Brasil, na Argentina e no Uruguai. Cerca de 37% de sua carne sai de abatedouros dos países vizinhos. Os contratempos enfrentados com o rebanho bovino apontaram outro problema a ser enfrentado pelo Marfrig: a dependência em relação à carne bovina in natura. Ficou claro para Molina que se a empresa se tornasse processadora, exportadora e importadora de carne, melhor que fosse de diferentes tipos e em diferentes estágios de preparo. Isso não só protegeria o negócio de futuros problemas sanitários com o boi como também aumentaria as margens do negócio, pois produtos industrializados são mais rentáveis.

Parte das aquisições feitas nos últimos dois anos já sinalizava essa intenção. Além de comprar frigoríficos de diferentes tipos de carnes, como o Chupinguaia, em Rondônia, e o AP&P, na Argentina, de bovinos; o Inaler, no Uruguai, que também abate ovinos; e o criador mato-grossense Carroll's, de suínos, o grupo Marfrig adquiriu também indústrias e marcas já consagradas. Arrematou empresas como a Mabella, que produz uma linha de embutidos com boa presença na região sul do Brasil, a Pena Branca, de frango, e a Mirab, que produz, na Argentina e nos Estados Unidos, o beef jerky, uma carne desidratada apreciada pelos americanos. Mas a estratégia ficou mais clara no final do ano passado, com a contratação de Sérgio Mobaier, executivo que estava há 16 anos na Sadia, para o posto de diretor de marketing. "A intenção é fazer do Marfrig uma indústria de alimentos que entrega produtos industrializados ao consumidor final", diz Mobaier. "E não apenas uma agroindústria."

A empresa planeja lançar novas linhas de marcas já consagradas, como a brasileira Bassi, reconhecida grife para churrascos e assados, que deve ganhar uma extensão de produtos de alta gastronomia. A recém-adquirida Da Granja, hoje restrita a hambúrgueres e empanados, também terá o portfólio ampliado. O Marfrig pretende ainda testar o potencial de internacionalização de marcas regionais. A primeira da lista será o hambúrguer argentino Paty, apreciado em alguns países da América do Sul e com bom potencial para entrar na Europa. Há expectativas também em relação às combinações comerciais que podem ser feitas em vários países com os empanados da marca Moy Park, que faz parte dos ativos comprados do OSI na Europa. Trata-se do maior processador de frangos do Reino Unido, dono de 80% do mercado de empanados, com acesso direto às redes de supermercados Tesco e Sainsbury. "O Marfrig terá um conjunto de marcas, como a Unilever", diz Mobaier. "Para integrá-las em uma única identidade, estudamos criar uma referência visual, um selo onde o nome Marfrig aparecerá."

A forma como o Marfrig cresceu pode parecer meio anárquica para os que olham de fora, mas revelou-se um trunfo. Como distribuidor, Molina aprendeu que a segurança do negócio está em ter a venda garantida. Assim, toda vez que comprava um lote a mais de carne, tinha cliente certo para vendê-lo. O mesmo ocorreu quando começou a adquirir frigoríficos. A produção de cada nova unidade já tinha destino. O raciocínio ele aplicou também para as exportações e para a internacionalização - cada nova empresa comprada vinha com clientes assegurados. "Ter o frigorífico é a parte fácil do negócio. Difícil é entender o cliente e fechar a venda", afirma Molina. O inglês James Cruden, diretor-operacional do Marfrig desde 2004, considera o modelo um dos grandes responsáveis pelo sucesso da empresa. "Marcos faz o caminho inverso dos concorrentes. Os frigoríficos têm o produto e precisam buscar o cliente. O Marfrig sempre teve o cliente e precisava buscar o produto. Ter o mercado é um grande diferencial." Há quase 40 anos no agronegócio, Cruden tem experiência para opinar. Trabalhou na Austrália, na Holanda e desde 1974 está no Brasil. Ocupou cargos executivos em empresas como o frigorífico inglês Anglo, o Bordon e a BF Alimentos, empresa de exportação mantida no início da década pelos concorrentes Bertin e Friboi.

Os tempos como distribuidor de carnes deram outra vantagem a Molina: contatos profissionais e pessoais com os quais ele teceu uma teia de relacionamentos em todo o Mercosul. Essa rede revelou-se estratégica para a profissionalização do Marfrig. Rodenbeck, do Outback, por exemplo, apresentou a Molina os executivos da Braslo, empresa criada no Brasil em 1982 pelo grupo OSI para fornecer hambúrgueres à rede McDonald's. O Marfrig tornou-se fornecedor da Braslo. Em 2002, foi criada a OSI Brasil, para administrar a Braslo e a Penasul, empresa de frangos do Rio Grande do Sul. Mais tarde, a proximidade com a OSI abriu portas para o Marfrig negociar a aquisição das operações do grupo no Brasil e na Europa. "Marcos foi de fornecedor a dono da Braslo em sete anos", diz Rodenbeck.

De sua agenda de contatos, Molina soube ainda extrair os talentos que contratou para profissionalizar o Marfrig. Boa parte da diretoria é composta por executivos com quem Molina um dia negociou. "Escolhi os que foram piores comigo", diz. "Sei que esses são os melhores." É o caso do irlandês James Cleary, diretor de planejamento e novos negócios, e o executivo à frente das aquisições mais ousadas do grupo neste ano. Cleary foi presidente do frigorífico Pampeano e convive com Molina há mais de dez anos. Em 2007, quando o Marfrig comprou o Pampeano, Molina convidou-o para o grupo. Outro exemplo é Bruno Stierli, responsável pelas operações de food service. Ele está na empresa há três meses, mas conhece Molina desde 2001, do tempo em que era gerente-geral da McCain do Brasil, empresa canadense especializada em batatas congeladas. "Molina sempre tentava barganhar, mas eu não dava moleza. Ele também não era fácil", diz Stierli.

A grande incógnita agora é saber se uma multinacional brasileira construída tão rapidamente, com pedaços de empresas diferentes e dispersas geograficamente, vai prosperar como uma indústria global. Molina estabeleceu alguns critérios para tentar blindar seu grupo e conquistar essa posição. Só compra empresas sadias, com equipes bem formadas, de preferência com profissionais com quem já fez negócios algum dia. "Na hora que analiso uma compra, vejo principalmente as pessoas", afirma. "A equipe precisa ter condições de tocar o negócio." Depois de fechar a aquisição, Molina preserva sempre que possível o comando. Quando comprou o Tucuarembó, no Uruguai, o frigorífico era comandado por um dos sócios, Martin Secco Arias. Ao assumir a empresa, manteve Arias na presidência. Em 2007, comprou novas unidades no país, tornando-se o maior exportador do Uruguai e também líder no abate de bovinos. Transformou, então, as operações no país em uma divisão, que foi entregue ao mesmo Arias. Tática idêntica adotou na Argentina. As operações locais estão com o argentino Luis Miguel Bameule, ex-Quickfoods. Os contatos com outros países são feitos pelo francês Alain Martinet, executivo com passagem pela Dreyfus, uma das maiores tradings do mundo. "Cada país tem sua cultura e é preciso respeitá-la", diz Molina. "Não adianta mandar um brasileiro, que não vai dar certo."

Na avaliação dos analistas, nada indica, até o momento, que algo possa dar errado na estratégia de crescimento do Marfrig, que, em meados de 2007, abriu o capital na Bolsa de Valores de São Paulo para fazer caixa e ampliar as compras. Na corretora Link, a ação da empresa está entre as recomendadas. "O Marfrig foca no aumento dos industrializados, o que vai elevar suas margens", afirma Rafael Cintra, analista de alimentos e de consumo da Link. "Além disso, diversificou a linha de produtos, entrando em frangos e suínos, internacionalizou a produção e só compra empresas saudáveis." Também pesa a favor do grupo o contexto internacional. O consumo de carnes está crescendo em mercados emergentes, principalmente na China, onde a população se urbaniza rapidamente e eleva a compra de carne bovina. Há ainda um componente político favorável. Estima-se que o aumento da inflação, que está encarecendo os produtos agropecuários no mundo todo, forçará os governos europeus a afrouxar barreiras sanitárias para elevar a compra de produtos mais baratos, como a carne brasileira. "O Brasil tem condições únicas de ser um grande fornecedor de alimentos para o mundo, e o Marfrig está aproveitando essa vantagem para se globalizar", diz Ricardo Florence dos Santos, diretor de relações com investidores do Marfrig. Santos trabalhou 16 anos no Pão de Açúcar, e é um dos executivos selecionados por Molina para atuar nessa nova fase de expansão da empresa.

REBANHO SORTIDO

O Marfrig investe na produção e na industrialização de diferentes tipos de carnes

Multinacionais emergentes

Para entender como um empreendedor saído do interior paulista constrói uma multinacional de capital aberto antes de completar 40 anos, é preciso analisar também o momento econômico mundial. A ascensão internacional do Marfrig não é um caso isolado. Um número cada vez maior de empresas fundadas em países emergentes está avançando para competir em países desenvolvidos como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha. Em 1998, apenas 12 companhias de países emergentes constavam do ranking das 500 maiores empresas da revista americana Forbes. Em 2006, esse número chegou a 48 e estima-se que mais de 100 estarão na lista até 2016. Alguns teóricos batizaram o novo fluxo de "segunda onda da globalização" e suas empresas de "multinacionais emergentes".

Boa parte do crescimento dessa nova safra de empresas se faz pela compra de outras, tanto em países emergentes quanto em países desenvolvidos. Isso está estabelecendo um novo patamar de competição e de consolidação em diversos setores. Entre os casos exemplares estão o da brasileira Vale, que arrematou a canadense Inco; a indiana Tata, que comprou a anglo-holandesa Corus; e a Mittal, que ficou com a francesa Arcelor. O efeito dessa transformação na arquitetura global dos negócios já é visto no Primeiro Mundo como ameaça às multinacionais estabelecidas.

Uma pesquisa da consultoria internacional de estratégia Roland Berger, obtida com exclusividade por Época NEGÓCIOS, leva o sugestivo título de Emerging Giants - Defending Your Market Share against the Impending Offense (algo como "Gigantes emergentes - defendendo sua participação de mercado contra a iminente ofensiva"). A pesquisa identifica quais características de gestão e estratégias das empresas emergentes foram decisivas para transformá-las em competidores globais e como as multinacionais de países desenvolvidos podem se proteger desses novos rivais. "As empresas de países emergentes estão em franca expansão internacional e se confrontam com as líderes", diz Thomas Kunze, sócio da Roland Berger responsável pela coordenação do estudo no Brasil.

A pesquisa aponta que as multinacionais emergentes estão se globalizando de uma maneira bem diferente da adotada pelas americanas e européias no passado. Companhias tradicionais, como a Ford, tornaram-se líderes nos Estados Unidos antes de se internacionalizar - e preferiram construir fábricas no exterior no lugar de comprar concorrentes. Boa parte das multinacionais emergentes cresce quando se internacionaliza e faz isso comprando empresas fora. A chinesa Haier, por exemplo, líder em eletrodomésticos no seu país, ganhou posições no mercado interno quando expandiu as atividades para toda a Ásia, comprando concorrentes. Outro diferencial das multinacionais emergentes é aproveitar o acesso direto às matérias-primas, tanto minerais quanto agrícolas. Muitas vezes, os insumos estão em outros países emergentes e elas não vacilam em buscá-los. A estatal russa Gazprom, líder no mercado global de gás, tem acordos de prospecção e extração em vários países emergentes na Europa Oriental, Ásia e América do Sul.

As primeiras multinacionais dos países desenvolvidos valeram-se da liderança tecnológica para conquistar o mercado global. Foi assim com os celulares lançados no mercado externo pela finlandesa Nokia e com os eletroeletrônicos da Philips, multinacional de origem holandesa que participa da criação de novos produtos desde a invenção da válvula, na década de 20. Poucas emergentes dispõem dessa vantagem. Algumas até avançam em novas áreas do conhecimento, como a indiana Ranbaxy, do ramo de medicamentos. Mas, em sua maioria, as novas multinacionais destacam-se por inovar na gestão. Rapidamente absorvem a cultura e os conhecimentos da empresa comprada e criam novas estratégias. "Por terem nascido em países com ambientes adversos para os negócios, as multinacionais emergentes são muito flexíveis e ágeis", diz Kunze. Um dos trunfos mais importantes, segundo a pesquisa, é ter no comando uma geração de novos líderes com forte espírito empreendedor e uma peculiar visão global para os negócios. Kunze os chama de presidentes-empresários. "São inovadores, ambiciosos e querem construir negócios internacionais", afirma. O representante máximo dessa linhagem é o indiano Lakshmi Mittal. Ele fundou sua empresa em 1974, aos 26 anos, e a transformou na maior do mundo comprando negócios ao redor do planeta. Quase todas as emergentes que ascenderam ao cenário internacional nos últimos anos têm à frente um líder expressivo, seja ele o fundador, o herdeiro ou um executivo visionário.

A pesquisa da Roland Berger não analisou o grupo Marfrig, mas ajuda a explicar por que os passos da empresa rumo à internacionalização foram bem-sucedidos. "Vários elementos da pesquisa aplicam-se ao que está ocorrendo hoje no setor de carnes no Brasil e em empresas como JBS, Sadia, Perdigão e Marfrig", diz Kunze. Um deles é a velocidade da internacionalização. Há oito anos, o Marfrig nem sequer exportava. Hoje é a empresa mais globalizada do agronegócio. Nesse movimento meteórico de internacionalização, o grupo valeu-se de uma vantagem destacada pela pesquisa: o acesso à matéria-prima. O rebanho de gado comercial do Brasil é o maior do mundo. Os dos vizinhos Argentina e Uruguai, por sua vez, estão entre os melhores. O Brasil também se destaca na produção e na exportação de frangos e de suínos, áreas de negócios nas quais o Marfrig cresce. Por fim, a empresa se beneficiou de uma gestão ágil e flexível, criada por um presidente-empresário com estilo e trajetória bem particulares.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Gargalo logístico nos EUA também

Não é só no Brasil que temos gargalos logísticos quando ocorrem aumentos de produção. Veja abaixo a notícia do Valor Econômico de 28 de agosto:

GARGALO LOGÍSTICO ATINGE SAFRA AMERICANA

Em todo os Estados Unidos, ao lado de elevadores de grãos, enormes montes dourados de trigo e de milho aguardam vagões ferroviários para transportá-los ao mercado. Os grãos podem ficar aguardando um mês ou mais no solo, expostos a vento, chuva e ratos.

É o lado negativo do crescimento explosivo da demanda mundial por milho, trigo e soja americanos. O surto exportador está revelando ineficiências nas ferrovias, rodovias e rios que escoam os grãos que ajudam a alimentar o mundo. E esses gargalos estão custando aos agricultores, transportadoras e, em última instância, aos consumidores, milhões de dólares por ano.

Mark Hodges, diretor-executivo da Comissão de Trigo de Oklahoma, viu o problema com seus próprios olhos. No início do segundo semestre, quando consumidores demandavam mais do que nunca trigo e milho americanos, Hodges fez um giro de visitas aos elevadores de grãos locais. Viu pilhas de grãos que pareciam formigueiros gigantes aguardando o embarque. Administradores frenéticos não conseguiam encontrar vagões ferroviários suficientes para transportá-los.

"Quando colocamos trigo no chão, ocorrem perdas", diz Hodges. "Eles nunca gostam de pôr os grãos no chão, mas quando o trigo está custando US$ 7, US$ 8 ou US$ 10 por bushel, com ainda mais razão, eles não gostam mesmo de colocá-lo no chão".

Uma colheita surpreendentemente grande, neste segundo semestre, deverá testar mais o sistema. O Departamento de Agricultura dos EUA prevê a segunda maior colheita de milho e a quarta maior safra de soja na história.

Alguns grupos empresariais do agronegócio temem que os gargalos possam prejudicar o status dos EUA como fornecedor mundial, à medida que outros países - como Brasil e Argentina - competem por uma lucrativa participação no mercado.

Em anos passados, grandes colheitas fizeram com que milhões de bushels fossem armazenados fora de silos de grãos repletos, aguardando transporte. Grãos carregados em barcaças enfrentavam esperas em comportas e barragens antiquadas no rio Mississippi, aumentando o número de dias e o custo do transporte.

Apenas os atrasos nas barcaças acrescentaram, em média, US$ 72,6 milhões por ano ao custo do transporte de mercadorias nos rios Mississippi e Illinois, segundo uma nova análise do Corpo de Engenheiros do Exército (CEE), divulgado à Associated Press.

Atrasos ferroviários também são onerosos. Em 2006, cerca de 1 bilhão de bushels de grãos foi armazenado a céu aberto ou em abrigos improvisados em Iowa, Illinois e Indiana, acrescentando estimados US$ 107 milhões a US$ 160 milhões, naquele ano, ao custo de seu transporte, segundo estatísticas do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). Isso corresponde a cerca de 1% do valor agregado, de US$ 13,8 bilhões, das exportações de milho e soja em 2006.

"Estamos muito atrasados em nossos investimentos em infra-estrutura, nos setores tanto privado como estatal", diz Peter Friedmann, diretor-executivo da Coalizão para Transportes Agrícolas, entidade que reúne exportadoras de grãos. "E precisamos tirar muito desse atraso ou veremos outros países nos ultrapassar, à medida que investem mais em sua infra-estrutura". O problema deve persistir, e mesmo se agravar, nos próximos anos.

Eliminar os gargalos necessitará bilhões de dólares em investimentos durante vários anos. Até que isso aconteça, as previsões são de que as exportações cresçam, sendo que os embarques de milho deverão crescer a cada ano durante a próxima década - de 54 milhões de toneladas para 77 milhões de toneladas -, segundo o Instituto de Pesquisas sobre Políticas Alimentares e Agricultura.

Custos adicionais por conta dos maiores gargalos só vão prejudicar agricultores americanos num setor extremamente competitivo no mundo. "Nessa atividade, preço é o que continua mandando", afirma Larry Jansky, negociante-sênior de commodities agrícolas na North Pacific , em Portland, no Estado de Óregon. "Dois ou três dólares por tonelada é a diferença entre ganhar ou não uma concorrência".

As exportações agrícolas no ano passado totalizaram pouco menos de US$ 90 bilhões. Se os Estados Unidos perderem somente 1% ou 2% desse mercado para países exportadores em rápido crescimento - como a Argentina -, isso poderá subtrair entre US$ 900 milhões e US$ 1,8 bilhão da economia.

De acordo com alguns economistas, os custos de transporte mais elevados podem prejudicar tanto agricultores como consumidores. Isso ocorre porque as companhias operadoras de elevadores de grãos ou de barcaças podem cobrir seus custos mais altos pagando aos agricultores um pouco menos por seu grão, ou cobrando dos consumidores um pouco mais pela mercadoria. O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) não monitora o custo que os gargalos no sistema de transportes acrescentam anualmente ao preço dos alimentos.

Operadoras de elevadores de grãos ganharam prática no armazenamento de grãos a céu aberto, usando plataformas de concreto e lonas para garantir que apenas uma fração da colheita seja perdida, disse Marvin Prater, economista do USDA.

Porém, mesmo nas melhores condições, a armazenagem de grãos a céu aberto implica que a carga precisa ser "manuseada duas vezes", por ser colocada, primeiro, fora do silo, depois recolhida para ser colocada no silo e somente então despejada num vagão ferroviário. Em contraste, quando as coisas funcionam a contento, os grãos são carregados dos caminhões dos agricultores diretamente nos elevadores de grãos cujos funis os despejam em vagões ferroviários que já os aguardam. O duplo manuseio acrescenta entre 10 e 15 centavos de dólar por bushel, diz Prater.

A Associação das Ferrovias Americanas (AFA) estima que custará cerca de US$ 148 bilhões para expandir as linhas ferroviárias nos próximos 30 anos, para dar conta do crescimento da demanda. Mas a associação diz que as companhias ferroviárias podem apenas arcar com de 70% dos custos necessários.

A AFA e as companhias que operam no setor de agronegócios estão apoiando a aprovação de uma legislação que ofereceria créditos tributários para investimentos na expansão da capacidade de transporte ferroviário.

As barcaças que descem o Mississippi são há muito tempo uma alternativa de transporte mais barato para agricultores com acesso ao rio. Mas o seu tráfegi é dificultado por comportas e barragens construídas na era da Depressão. Esses atrasos acrescentam cerca de 50 horas ao tempo de viagem ao longo do trecho superior do Mississippi, segundo cálculos de Scott Whitney, gestor do Corps.

Os maiores gargalos estão nos movimentados portos americanos, onde os produtos agrícolas são carregados em navios oceânicos. Com o passar dos anos, os exportadores passaram a despachar cada vez mais os grãos alugando contêineres vazios que traziam bens de consumo para os EUA provenientes de outros mercados extrangeiros, como a China. Mas como essas importações diminuíram, as exportações estão sujeitas a maiores esperas, e a pagar mais, para conseguir espaço em navios que seguem para o exterior, disse Jansky, o comerciante de grãos em Portland. Jansky disse que o custo de alugar um contêiner de 20 pés mais que dobrou, para US$ 1,7 mil, apenas nos últimos 10 meses.